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Actualizado às 10:16 PM, Dec 11, 2019

Mad Max: Estrada da Fúria

Mad Max: Estrada da Fúria» não podia ser mais surpreendente, uma obra genial em jeito de fantasia «punk» que desagua numa grandiosa ópera visual. Perfeito na sua execução, está longe de ser mais do mesmo, com uma complexidade estética onde as imagens respiram e falam por si, servindo de cenário glorioso a Tom Hardy e Charlize Theron, dois dos melhores atores da atualidade.

Aos 70 anos, George Miller conseguiu criar um novo clássico com o personagem Max Rockatansky (Tom Hardy), numa brilhante reinvenção 30 anos depois do original de 1979. A maior ironia passa pelo facto de ser Charlize Theron, como Imperator Furiosa, a roubar a luz da ribalta a Tom Hardy, com o espectador a assistir ao nascimento de uma personagem ícone.

Embora ambos levem o filme a bom porto, graças a um entendimento subliminar, as emoções andam de mãos dadas com sangue, suor e lágrimas. O objeto é lacónico, no enredo e nos diálogos, e as motivações dos personagens advêm de uma revolta interior que conduz a narrativa no desejo de vingança, redenção, ascensão aos céus ou descoberta da esperança.

Num mundo violento e cínico, os nossos anti-heróis descobrem a sua humanidade numa terra inóspita. Max foge aos fantasmas do passado e Furiosa procura o éden perdido ao tentar regressar aos “jardins verdes” de onde foi capturada quando era jovem, levando consigo Max (por acidente) e cinco mulheres “reluzantes e cromadas”, as parideiras da descendência de Immortan Joe (interpretado com carisma por Hugh Keays-Byrne, um repetente da série), um vilão com estatuto divino que reina no seu antro através do terror e do fanatismo.

mad max 3

«Mad Max: Estrada da Fúria» é fértil em criaturas bizarras e está carregado de números de circo em tempo real que se constroem invariavelmente sobre rodas com inúmeras acrobacias e stunts. A “máquina de guerra” é o centro da ação, numa espécie de camião TIR com dois motores V8 conduzido por Furiosa, que atravessa a aridez do deserto para escapar a um conjunto de psicopatas em todo tipo de rodas, os “war boys”, elementos de uma seita pseudo religiosa que acredita que o sacrifício derradeiro pelo déspota Immortan Joe é uma «via verde» para o paraíso.

Neste tratado de heavy metal, uma perseguição alucinante que dura 120 minutos, os 150 milhões de dólares de produção foram utilizados até ao último «penny». As imagens são quadros para a posteridade e o trabalho de arte e caracterização é decisivo para a criação de uma nova mitologia virada para os espectadores deste milénio.
A rodagem decorreu no deserto da Namíbia e o trabalho de fotografia proporciona imagens de cortar a respiração, seja em momentos de «ação» ou sequências de pura contemplação (a direcção de fotografia pertence ao experiente John Seale, de «O Paciente Inglês» e «Encontro de Irmãos»).

Por sua vez, a experiência sonora é uma «trip» para os nossos ouvidos, dos efeitos sonoros à orquestração, que combina o clássico com o industrial, pois o som é uma presença ativa no filme.

Em IMAX, a combinação 3D com o som e a imagem XXL deixam-nos boquiabertos. Prevê-se que o filme só esteja duas semanas neste formato em Portugal - um atropelo ao espectador –, mas vale a pena aproveitar a possibilidade de senti-lo em toda a sua magnificência.


Avassalador e uma imparável avalanche de acção aliada a imagens de pura arte cinematográfica, «Mad Max: Estrada da Fúria» é um claro exemplo de um blockbuster que se assume como um objeto de arte no novo milénio. Venha o próximo!

cinco estrelas

Título Nacional Mad Max: Estrada da Fúria Título Original Mad Max: Fury Road Realizador George Miller Actores Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult Origem Austrália/Estados Unidos Duração 120’ Ano 2015

(Publicado originalmente na Metropolis nº29)

 

Tomorrowland - Terra do Amanhã

Aperte bem o cinto e prepare-se para uma aventura imparável... Seja bem-vindo a «Tomorrowland – Terra do Amanhã», onde o sonho é o fio condutor. Frank Walker (George Clooney), outrora um jovem e prodigioso inventor, cheio de esperança no futuro, é hoje um homem frustrado e profundamente dececionado com o mundo. Já Casey Newton (Britt Robertson) é uma adolescente muitíssimo inteligente e curiosa, que ainda acredita no poder do sonho e da vontade humana. Os seus destinos cruzam-se quando Casey descobre um alfinete muito especial que a leva para uma realidade paralela. Mais tarde a jovem procura Frank para que ele lhe mostre, de novo, aquele lugar mágico. Trata-se de Tomorrowland, o lugar que mudará, para sempre, as suas vidas e o fado da própria humanidade.

O renomado realizador de filmes de animação, Brad Bird, embarca nesta aventura, assinando uma utopia futurista cheia de luz e que tenta impressionar mais pela sua mensagem do que pelo uso de brilhantes efeitos especiais. A fotografia em muito ajuda neste propósito, concretizando-se numa estética reluzente que condiz com as intenções do argumento. Apesar de ter o futurismo como tema, a obra é moldada com várias referências vintage, que acrescentam ao filme algum encantamento adicional. Quanto à representação, ter George Clooney num filme deste género não é propriamente habitual, mas a escolha não poderia ter sido mais acertada. O ator imprime à sua personagem as características necessárias para que sirva (quase sempre) de oposição à personagem idealista de Casey, numa ótima interpretação da jovem Britt Robertson. Muito bem enquadrados estão também Hugh Laurie e Raffey Cassidy, ele mais carrancudo e cético e ela simplesmente encantadora.

«Tomorrowland – Terra do Amanhã» é um filme do mais Disney que há! Algo que já não se via há algum tempo. Os efeitos especiais são de cortar a respiração, contribuindo ora para a espetacularidade do filme ou mais como acessório em outros momentos. Muito ambicioso, o filme nem sempre consegue atingir verdadeiramente o objetivo, perdendo-se num argumento megalómano que, por vezes, falha os detalhes.

Todavia, a mensagem é inspiradora: a salvação da humanidade depende, justamente, da própria humanidade. Nesta senda, apenas os sonhadores conseguirão ser bem-sucedidos. E nunca é demais relembrar o quanto o sonho e a esperança podem ser poderosos...

Tomorrowland
Realização: Brad Bird
Actores: George Clooney, Britt Robertson, Hugh Laurie
Estrelas: 4

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 29

Tangerinas

Quarta longa do georgiano Zaza Urushadze, «Tangerines» projecta um sistema de coordenadas geopolíticas que não é fácil de descodificar. Senão, vejamos: estamos na Abecácia de 1992 (isto é, na época da guerra civil que haveria de conduzir à independência do território da Geórgia), e seguimos os passos de um velho carpinteiro estónio que vive sozinho numa aldeia desertificada pelo conflito militar (a sua única companhia é um vizinho que pretende abandonar a região, assim que haja terminado a colheita de tangerinas que tem em mãos). Quanto à guerra, essa, permanecerá confinada ao fora de campo, até ao dia em que o protagonista descobre (para além de um conjunto de cadáveres) dois soldados gravemente feridos nas redondezas, prontificando-se a acolhê-los em sua casa. Mas, não será preciso esperar muito para perceber que os dois soldados (um georgiano e um tchetcheno) combatem de lados opostos das barricadas, e que a sua convivência debaixo de um mesmo tecto será – no mínimo – problemática.

Eis, em suma, as premissas de uma parábola antibelicista que, gerindo embora com inteligência a condensação do espaço (quase toda a acção toma lugar no interior da casa do protagonista), é sempre demasiado naïf e bem intencionada para ser convincente, limitando-se a investir a fundo na possibilidade de usar as suas personagens para veicular uma mensagem humanista que não adianta nem atrasa. Nesse processo, a política leva a melhor sobre o cinema, e «Tangerines» fica estagnado na obrigação moral que se auto-impôs, designadamente: a de não ser mais do que um imenso spot publicitário a favor da paz. Há mais e melhor fruta no pomar.

Estrelas:1

Mandariinid

Realização: Zaza Urushadze
Actores: Lembit Ulfsak, Elmo Nüganen, Giorgi Nakashidze

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 29

Comoara

O cinema do romeno Corneliu Porumboiu («12.08 a Este de Bucareste», «Quando a Noite Cai em Bucareste», etc.) vive de uma cruel contradição: sob a capa da banalidade quotidiana escondem-se os fantasmas da tragédia. Assim volta a acontecer neste filme centrado num tesouro (é essa a palavra do título original) que um homem insiste estar escondido no jardim de uma casa que herdou dos avós, conseguindo mobilizar o seu relutante vizinho para uma homérica escavação... A crónica social confunde-se, aqui, com o mais profundo desencanto moral, numa narrativa que, como sempre, envolve um exemplar trabalho de direcção de actores.

João Lopes em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Carol

Na vasta paisagem de filmes americanos que, ao longo das últimas décadas, têm recuperado as matrizes clássicas de Hollywood, Todd Haynes constitui um criador fundamental. Treze anos depois de Longe do Paraíso, ele volta a percorrer o labirinto das pulsões melodramáticas para encenar o amor de duas mulheres no contexto não muito acolhedor da década de 1950. É uma prodigiosa adaptação de um romance de Patricia Highsmith (título original: “The Price of Salt”), centrada nas composições de Cate Blanchett e Rooney Mara. Será desta que, com a sua direcção fotográfica inspirada no technicolor dos anos 50, Edward Lachman ganha um Oscar?

João Lopes em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Dope

A vida de um grupo de adolescentes num bairro problemático de Los Angeles surge transfigurada através de um sábio doseamento de hip hop (eles são fanáticos dos anos 90) que, insolitamente, aproxima o filme de algumas componentes clássicas do filme musical. Dir-se-ia uma variação sobre temas e matrizes de Spike Lee, transfigurada por uma sensibilidade que não é estranha a métodos narrativos de algum documentarismo — uma das boas revelações da Quinzena.

João Lopes em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

The Sea of Trees

Embora vaiado por sua aposta numa linguagem mais conservadora, o novo filme de Gus Van Sant confirma o rigor de enquadramentos e a busca pelo refinamento plástico que marcam o cineasta desde «Elefante» (2003). Ao falar sobre a epopeia suicida de um professor de Ciências no Japão, o diretor extrai de Matthew McConaughey mais uma atuação memorável, em um ensaio de tons poéticos sobre a educação pela dor. Abalado pela perda de sua mulher (Naomi Watts), o filme cruza dois diferentes tempos: o passado - no qual o personagem de Matthew luta para salvar a esposa e enfrenta a brutalidade dela – e o presente – no qual ele se embrenha pelas florestas do Japão ao lado de um desconhecido misterioso. O asiático cercado de mistérios é interpretado por Ken Watanabe e ele funciona como a medida do sobrenatural no longa, cuja fotografia do dinamarquês Kasper Tuxen merece indicação ao Oscar.

Rodrigo Fonseca em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

Inside Out

O novo filme da Pixar lida com um tema que os espectadores dos filmes do estúdio de animação conhecem muito bem: as emoções. A raiva, o medo, a repulsa, a tristeza e a alegria, protagonizam grande parte das decisões tomadas por uma rapariga de 11 anos. A mente é o cenário da ação de um filme que nos desvenda o percurso das memórias, os atalhos para o subconsciente e a forma como se consolida a personalidade. As emoções assumem o protagonismo, o que sendo original não deixa de ser excessivo porque o espectador nunca chega a criar uma verdadeira empatia com a criança. Não está à altura das obras primas da Pixar mas é um filme original, que tem o arrojo de lidar bem com algo de novo. Vale a pena saudar um filme totalmente novo da Pixar, o que não sucedia desde «Brave - Indomável» (2012).

Tiago Alves em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 27

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