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Actualizado às 11:37 PM, Nov 4, 2019

Embrace the Serpent

Uma das sensações da Quinzena dos Realizadores, de onde saiu com o Prêmio C.I.C.A.E., esta exuberante produção em preto e branco, com direção de Ciro Guerra («Los Viajes Del Viento»), colocou a Colômbia no centro das atenções do planisfério cinéfilo ao subverter conceitos etnográficos da observação de espécies indígenas. Parente distante de «Fitzcarraldo», de Werner Herzog, em sua observação sobre a lucidez no limite do risco, o longa-metragem é narrado do ponto de vista de um pajé amazônico. Durante 40 anos, o xamã Karamakate (papel divivido entre os atores Nilbio Torres e Antonio Bolivar) convive com dois cientistas (um da Europa, outro dos EUA) aprendendo as contradições do povo branco. De um lado vem o etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg (Jan Bijvoet ) e, do outro, o biólogo americano Richard Evan Schultes (Brionne Davis). Em meio ao olhar cartesiano de ambos, Karamakate trafega por uma fronteira entre realidade e delírio, na proteção de uma planta imaginária que faz sonhar. Nesse tráfego, ele e espectador aprendem, juntos, a estética da selva.

Rodrigo Fonseca em Cannes

Son of Saul

«Saul Fia» («O Filho de Saul») foi o acontecimento e a revelação da 68ª edição do Festival de Cannes. Primeiro porque se tratava da única primeira obra a competir para a Palma de Ouro entre 19 selecionadas. Segundo, e mais relevante, porque o cineasta húngaro, László Nemes, nascido em 1977, conseguiu fazer um filme invulgar sobre o Holocausto. O dispositivo dramático do filme coloca em cena Saul Ausländer, membro do Sonderkommando no campo de Auschwitz-Birkenau, o grupo de prisioneiros judeus que os nazis forçavam a cooperar nas suas práticas de extermínio. Toda a deambulação da câmara pelos locais do campo está colada aos movimentos de protagonista, e assim vamos adivinhando os horrores pelos diálogos, ruídos, situações vagamente vistas e reações faciais. É um filme original com uma perspetiva realista e testemunhal sobre o que correu no interior daquele campo.

Tiago Alves em Cannes

Room

Baseado no romance homónimo de Emma Donoghue, «Room» é um dos retratos mais convincentes do poder maternal. Uma história arrebatadora, que no papel pode parecer uma ideia pouco atraente mas que depois nos surpreende. Na verdade, não se parece com nada que já tenhamos visto. É esse efeito de desconforto territorial que lhe aufere um valor humano profundo, quase existencialista. Sentimo-nos tão chocados como tocados, tão maravilhados como abençoados. Aquela criança, obrigada a inventar um mundo e, depois a descobri-lo, consegue um milagre de cinema: voltarmos a imaginar a nossa infância. Será como um jogo de crianças? Talvez, mas talvez ainda mais como um conto de fadas à Lewis Carroll, com monstros de verdade. Jack, o menino, sente-se como Sansão. Trata-se de uma das personagens mais fascinantes que aqui se viu no Festival de Toronto, sublinhada por uma interpretação de um menino de sete anos sobredotado, de nome Jacob Tremblay. Vamo-nos lembrar tanto dele como ainda nos lembramos d’ «O Menino Selvagem», de Truffaut. Obviamente, também será impossível não ficarmos devastados com o tour de force de Brie Larsson, a atual revelação de Hollywood.
Em «Room» entramos na infância pelos portões do pesadelo real.

Rui Pedro Tendinha em Toronto

Anomalisa

Em 1999 Charlie Kaufman surpreendeu o festival de Veneza através do argumento de «Queres Ser John Malkovich?». Em 2015 regressou como realizador de um filme animado que reentra nos meandros da mente, abordando a síndrome de fragoli, uma doença neurológica rara que se manifesta através da incapacidade para diferenciar os outros. A personagem do filme vive infeliz, insatisfeita com as pessoas próximas, até conhecer uma rapariga vulgar, com baixa auto estima, chamada Lisa. Charlie Kaufman dirigiu o filme com Duke Johnson, um especialista em stop motion. «Anomalisa» tem um aspeto austero, estranho, que se adequa a um conto contemporâneo sobre a solidão e a depressão.

vozes Jennifer Jason Leigh, David Thewlis, Tom Noonan realizadores: Duke Johnson, Charlie Kaufman Min. 90´ eua

O Conto dos Contos

Convenhamos que é uma surpresa: Matteo Garrone, o cineasta italiano de «Gomorra» (2008) e «Reality» (2012), a dirigir uma produção internacional, falada em inglês, baseada nos contos fantásticos de Giambatista Basile (1566-1632). O resultado tem tanto de sofisticação técnica como de pretensiosismo estético, colocando Garrone entre as mais inesperadas desilusões deste festival.

João Lopes em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 29

Título Nacional O Conto dos Contos Título Original Il racconto dei racconti Realizador Matteo Garrone Actores Salma Hayek, Vincent Cassel, Toby Jones Origem Itália/França/Reino Unido Duração 125’ Ano 2015

O Principezinho

Sermos responsáveis pelos amores que cativamos pelo caminho é uma lição que Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) ensinou à sua legião de leitores desde a publicação de “Le Petit Prince” em 1943. Os saberes que o principezinho adquire a duras penas, em meio a baobás invaginando a paisagem do asteróide B-612, são compartilhadas nesta releitura do diretor Mark Osborne («Kung Fu Panda») a partir de uma narrativa capaz de mesclar diferentes técnicas de animação. O eixo é encontro de uma menina com seu vizinho excêntrico, um aviador (dublado por Jeff Bridges no original) que, num passado distante, travou contato com um garotinho de outro mundo. A trilha sonora de Hans Zimmer e Richard Harvey pontua os momentos de maior coeficiente lacrimoso do livro, que foi relido por Osborne com o cuidado de preservar sua dimensão filosófica. As reflexões de que jiboias podem engolir elefantes, uma vez que a imaginação é mais forte do que conhecimento, voltam aqui arejadas por recursos de computação gráfica, comunicando-se mais diretamente com novas gerações. É uma pedida certa para o Oscar de melhor longa animado de 2016.

Rodrigo Fonseca em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 29

Hrútar

É comum à cena dos grandes festivais da Europa esperar (com apetite antropológica) exotismos de continentes como a Ásia e a África. Mas este ano, o filme mais exótico (sobre a cultura menos familiar) veio do próprio Velho Mundo, da gelada Islândia, trazida pelo diretor Grímur Hákonarson («Sommerland»). Prêmio de melhor filme da mostra Um Certain Regard de 2015, «Hrútar» (no original) venceu por propor uma conciliação quase poética entre animais quadrúpedes e bípedes com cérebro pensante, numa perspectiva ecológica e metafórica. A metáfora maior é a da tolerância, coisa que mamíferos como os carneiros do título em inglês professam e os homens e mulheres, não. Na trama, com rasgos de humor, dois velhos, irmãos de sangue, odeiam-se há 40 anos. Em comum, eles têm apenas o cuidado com seus bichinhos chifrudos e cheios de lã. Mas quando o Estado baixa uma lei de que os rebanhos caprinos, maculados por uma doença, precisam ser abatidos, os dois antagonistas terão que se unir, rendendo cenas de arrancar lágrimas.

Rodrigo Fonseca em Cannes

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 29

Mundo Jurássico

A maioria dos espectadores, pelos menos os mais velhos, vão sair da sala a pensar, com toda a razão, que já viram algo parecido há mais de 20 anos realizado por um tal de Steven Spielberg.

«Mundo Jurássico» não é um mau filme. Aliás, segundo os elevados padrões de efeitos especiais gerados por computador, não temos nada a apontar. O problema é que não se acrescenta absolutamente nada à saga e repete-se a premissa de um parque com dinossauros que entra em rutura após um dinossauro geneticamente modificado se libertar da sua «jaula» e causar o caos.

A partir deste momento vale tudo onde os predadores se tornam as presas. O espanto do espaço do mundo jurássico é substituído pelos atores e não pelas criaturas CGI, Chris Pratt e Bryce Dallas Howard estão em brasa. No caso do primeiro, após ter arrasado em 2014 com «Os Guardiões da Galáxia», volta a carregar o filme às costas com o seu carisma de figura de proa que contracena perfeitamente com Bryce Dallas Howard, trazendo à memória o charme das duplas clássicas da idade de ouro de Hollywood. É o melhor do filme e os dinossauros são secundarizados sempre que eles estão em cena.

A par da premissa de um filme gerado para faturar ironicamente sublinha-se a necessidade de criar atrações mais letais - leia-se com mais dentes - para atrair jovens que passam mais tempo nas redes sociais do que no mundo real. A ganância das corporações que pensam tudo como se fosse cifrões e pode ser transformado num brinquedo de guerra, bem como a falta de empatia entre as famílias e um herói genuíno que traz a testosterona de macho alfa para salvar o dia são os dispositivos dramáticos do argumento de Rick Jaffa e Amanda Silver, que tinham feito um trabalho interessante no relançamento de «Planeta dos Macacos» (2011/2014).

O filme tem um vasto elenco internacional que faz o que pode com os seus papéis. A realização de Colin Trevorrow parece-nos algo tarefeira e atabalhoada em momentos críticos, pois é difícil perceber o que se está a passar nas sequências de «ação». O 3D tem os seus momentos, mas já vimos muito melhor em 2015.

Estamos num ano de «best-of», provavelmente histórico para o cinema. A criatividade, originalidade e capacidade de surpreender são elementos obrigatórios para levar os espectadores às salas e estes dinossauros soam demasiado a «déjà vu». Mesmo assim, para todos aqueles que se querem divertir ao jeito de uma montanha russa com alguns sustos, amor com suor à mistura e aventura com dinossauros, sejam, novamente, bem-vindos ao «Parque Jurássico» em versão 3.0 com entretenimento q.b.

Jurassic World
Realização: Colin Trevorrow
Actores: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Ty Simpkins

Estrelas: 3

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 29

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