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Actualizado às 10:16 PM, Dec 11, 2019

Ex Machina

Há qualquer coisa que não funciona bem neste filme... Mas não é o robô. A arriscar, e sem querer entrar em demasiados pormenores – o jogo de adivinhação é parte importante da experiência –, apontaria o argumento como defeito principal. Facto curioso, uma vez que, sendo «Ex Machina» a sua estreia na realização, Alex Garland tem vindo a construir ao longo dos últimos 15 anos um currículo bastante apreciável enquanto argumentista. Entre romances, argumentos originais e adaptações, contam-se 11 filmes, alguns bastante bons – «A Praia» (2000), «28 Dias Depois» (2002) ou «Nunca me Deixes» (2010), são disso exemplo. Seria, pois, de esperar que as maiores dificuldades não surgissem do lado do argumento que, apesar de muito simples (é quase uma peça de câmara), parece depender demasiado dos pequenos equívocos, da ocultação de factos, das reviravoltas na trama. Neste sentido, Caleb (Domhnall Gleeson) funciona como o nosso duplo, alguém que vai, a pouco e pouco, e com base na sua intuição, desvendando o enredo.

Acabam por ser as excelentes interpretações dos actores a trazer uma maior complexidade a um filme que arrisca muito pouco na exploração das questões que realmente interessava investigar: será possível criar uma máquina consciente? Existe alguma diferença de fundo entre a realidade de um sentimento e o seu simulacro? A haver, é isso suficiente para nos distinguir das máquinas? E, finalmente, que tipo de relação nos pode vir a unir, homens e robôs, num futuro não tão longínquo?

A verdade é que quando o robô tem o rosto e a silhueta de Alicia Vikander, tudo se torna mais confuso. A fisicalidade é uma dimensão determinante que felizmente não é descurada ou vulgarizada. Com uma sólida formação de bailarina, Vikander confere a Ava uma existência grácil e sedutora, mas, ao mesmo tempo, demasiado precisa. Esta dualidade é perfeitamente captada pela actriz que transforma cada interacção sua com o espaço e diferentes interlocutores numa experiência inquietante. O facto de Garland abordar de frente a questão do erotismo, imprimindo-lhe contornos bastante sombrios, é também um aspecto a valorizar. Em suma, apesar de pouco original, «Ex Machina» conseguirá sem dúvida prender a atenção daqueles que olham para o futuro da inteligência artificial com um misto de fascínio e de pavor.

tres estrelas

Título Nacional: Ex Machina Título Original: Ex Machina Realização: Alex Garland Actores: Alicia Vikander, Domhnall Gleeson, Oscar Isaac Duração: 108’ Ano: 2015 Origem: EUA

Ascenção de Jupiter - BD

Os irmãos Wachowski regressam a casa, à cidade de Chicago e ao cinema de alta-voltagem, com «Ascenção de Jupiter», um alucinante épico inter-galático. A edição blu-ray vai permitir que os espectadores tenham a perceção que perderam nas salas um filme sem compromissos face ao entretenimento. Channing Tatum e Mila Kunis são os protagonistas desta operática história sobre uma inesperada heroína que é transportada através da galáxia para impedir a destruição da Terra. Algumas interpretações estão em modo overacting como o caso gritante de Eddie Redmayne mas esta elaborada sci-fi é detalhada até ao ínfimo pormenor, cenários, figurino e adereços. «Ascenção de Jupiter» é uma experiência cinematográfica em grande escala com alma e coração como os épicos de outrora.

A edição blu-ray contém várias featurette de produção e vale o espectáculo digital no “pequeno” ecrã.

Annabelle - BD

«Annabelle» é um spinoff de «The Conjuring - A Evocação» e vem da mesma fonte de inspiração: os arquivos reais de Ed e Lorraine Warren, os especialistas em demónios, exorcismos e afins. A história decorre nos anos 1960 em Los Angeles com o aparecimento do fanatismo das seitas religiosas. Um casal é vítima de uma invasão doméstica e após o trágico desfecho do evento ocorrências arrepiantes começam a manifestar-se na residência e têm como finalidade o recém-nascido da família. O argumento está bem construído e combina o terror com o suspense e o drama familiar. O filme tem uma realização cuidada sendo assustador q.b. ao ir beber a clássicos como «A Semente do Diabo» (1968). Encontramos um elenco seguro pontuado por boas interpretações de Tony Amendola, Alfre Woodard e Annabelle Wallis no papel de mãe, e claro uma boneca assustadora que promete tirar o sono aos espectadores.

A edição blu-ray contém featurette de produção, uma delas algo arrepiante com as descrições de estranhos eventos que ocorreram durante as filmagens...

Sniper Americano - BD

Clint Eastwood aos 80 anos e na sua trigésima quinta realização contínua imparável, «Sniper Americano» foi o maior sucesso, crítico e financeiro, da sua carreira. É inspirado em factos verídicos, na história de Chris Kyle, um navy seal e o melhor sniper da história do exército americano. Destaque para o profundo trabalho de pesquisa e adaptação do livro presentes na escrita do argumento de Jason Hall. Este filme obrigatório é um eloquente tratado sobre a guerra e as consequências humanas do ponto de vista do protagonista dividido por deus, pátria e família. Encontramos o amor a paredes meias com o dever pelos camaradas de armas durante várias campanhas de guerra no Iraque. O argumento conseguiu destilar perfeitamente o papel de Chris Kyle no lado intimo e familiar perante a guerra, uma dualidade que remete o filme para outra dimensão transformando-se também numa história de amor e de sofrimento daqueles que ficam na terra mãe. «Sniper Americano» tem um fervor patriótico mas nunca cai no maniqueísmo lançando o debate sobre o real esforço de guerra na América. Nota final para a performance de Bradley Cooper numa interpretação exigente a nível físico e psicológico volta a provar todo o seu talento dramático neste tributo a um herói americano.

A edição blu-ray conta com um making of e um magnifico documentário de produção.

Maggie - DVD

«Maggie» (2015) é a obra mais inesperada onde poderíamos ver Arnold Schwarzenegger após o seu longo hiato cinematográfico, provocado pelo seu pelouro como governador da “Kalifórnia” [“Cal State” com sotaque de Schwarzenegger]. A interpretação é uma revelação pela sua amargura, trazendo à tona reminiscências do actor/herói de acção Clint Eastwood quando entrou no (eterno) crepúsculo da sua carreira – Schwarzenegger está quase com 70 anos. Em plena moda dos zombies, «Maggie» é um respeitável tratado emocional da relação de um pai prestes a perder a sua filha num mundo flagelado por uma epidemia que está difícil de controlar. A par das interpretações (Abigail Breslin amadureceu muito bem) está um argumento cheio de linha e uma realização de estreia de Henry Hobson que deixa as atmosferas, o suspense e o drama humano tomar conta do filme em uma daquelas obras que fica na retina pela angústia e empatia que cria junto do público.

A Caminho do Oeste

O trabalho de estreia de John Maclean é uma interessante visão de autor sobre o western. Características marcantes na encenação, diálogos, encenação e tom da narrativa distinguem esta obra. «A Caminho do Oeste» é uma revisitação do western clássico que traz ao de cima um lado existencial, personagens excêntricos e a procura do amor num lugar onde existe apenas o ódio e a sobrevivência através das balas. Um jovem aristocrata escocês (Kodi Smit-McPhee) parte para a América à procura da sua paixão (Caren Pistorius) que se refugiou nas planícies do Oeste. Pelo caminho ele encontra um companheiro de viagem (Michael Fassbender) que também procura a rapariga, por diferentes razões. A viagem para Oeste fica marcada por uma série de encontros violentos e insólitos com personagens extravagantes, destaque para o fabuloso Ben Mendelsohn. Um filme completo que vale a pena descobrir em DVD e ultrapassa as fronteiras do género.

Mia Hansen -Løve - Eden

Jovem talento do cinema francês, Mia Hansen-Løve esteve em Portugal no âmbito da 11ª edição do Indie como um dos destaques na secção Herói Independente. Ao longo do festival, foi possível ver o conjunto da sua obra, incluindo o seu último filme «Eden» (2014) – numa das sessões mais concorridas do certame. Antes de regressar a Paris, a realizadora de «Amor de Juventude» (2011) e herdeira da tradição naturalista francesa, participou numa Q&A onde a METROPOLIS teve a oportunidade de conversar com ela.

Mia Hansen-Løve sobre: o amor

“É seguramente a minha maior inspiração: os meus filmes são sobretudo sobre a passagem do tempo, sobre a vida, mas o amor está no centro disso, e acho que tem a ver com as minhas próprias relações. Duma forma diferente, poderia dizer que a vingança nunca foi uma fonte de inspiração para mim e ainda continua a ser um mistério o porquê de tantos filmes serem feitos sobre isso, porque não vejo isso como um motor dos meus filmes. Na vida, tenho a certeza que existe, mas à minha volta, entre as pessoas com quem me dou, que conheço, não são estimuladas por sentimentos de vingança ou, como vemos em muitos filmes, sentimentos de impostura, engano. Existem imensos filmes que são sobre alguém que engana, a autenticidade das pessoas.”

Mia Hansen-Løve sobre: a passagem do tempo

“É a minha fonte de inspiração. Não sei explicar o porquê desta opção. É uma parte de mim, do meu processo de escrita, é tanto assim que às vezes dou por mim a desejar fazer um filme no presente, que se passe durante 2 a 3 dias porque percebi que todas as histórias que conto não podiam depender de apenas 2 anos. Têm a ver com a minha própria obsessão com o tempo. Especialmente quando era adolescente, era obcecada por isto, tinha esta sensação de que as coisas se passavam sempre tarde de mais, que já tinham passado. As pessoas chamam-lhe melancolia, mas para mim tem a ver com esta obsessão com a passagem do tempo. Não consigo explicar ou definir, mas está na base dos meus filmes. Fazer cinema e falar sobre filmes é uma forma de lidar com isso, de lutar contra isso. Fazer filmes é uma forma de estar no presente, de viver no presente. Por isso gosto de trabalhar com atores muito novos, e não com atores de meia-idade. Gosto de trabalhar com esta ideia da maturidade e da passagem do tempo e por isso os rostos são de atores muito novos porque me interessa a juventude e uma espécie de inocência. Na maioria dos filmes, os realizadores escolhem atores que estão perto da idade do fim do filme. A mim interessa-me a passagem do tempo e essas mudanças que se dão nos próprios atores durante a rodagem. Sempre me entusiasmou a ideia de filmar jovens a crescer, filmar o seu processo de crescimento. Algo que me toca no final de «Um Amor de Juventude» (2011), quando a personagem de Lola Créton está a andar e há um olhar dela que nunca poderia ter tido no início do filme. Quando a comecei a filmar, fiquei com a sensação de que estava a filmar uma rapariga muito nova, a sair da infância, e depois, no final, tinha a certeza que ela era uma jovem mulher. Sabia que o filme tinha acompanhado este processo de crescimento. E é algo que me emociona.”

Mia Hansen-Løve sobre :os filmes e a vida

“Tenho a sensação que cada um dos meus filmes marca uma época da minha vida. As pessoas têm diários, eu tenho os meus filmes que são pedaços da minha vida. Não procuro ideias para fazer os meus filmes, são momentos da minha vida, formas de refletir sobre etapas da minha vida.”

Mia Hansen-Løve sobre: a fase inicial da carreira

“O facto do produtor se ter suicidado durante o processo de preparação da primeira longa (onde já vinha a trabalhar há um ano) e eu ter conhecido a sua mulher e os seus filhos e um pouco do resto da sua vida, tudo isso dialogava comigo e, duma certa forma, com a minha primeira longa. Quando fiz o meu primeiro filme, um filme sobre transmissão, sobre melancolia, numa forma simplificada, conheci este produtor e esse encontro foi muito importante para mim, o quanto ele percebia o meu projeto. Depois este produtor suicidou-se, desapareceu, e eu senti que a melancolia que estava a sentir se escapou para a realização do filme. Não é acidental o facto destes dois filmes terem a mesma estrutura pois tinha a ver com esta sensação de que o que se estava a passar na minha vida tinha a ver com o assunto que trata o primeiro filme. O argumento de «Tout Est Pardonné» (2007) já tinha sido escrito antes de o conhecer (ao produtor) e quando o conheci nunca pensei que ele viesse a ter algo a ver com este filme. Mas nós falámos muito sobre cinema, relações e as referências cinematográficas – o facto de ambos termos começado como atores no cinema.”

Mia Hansen-Løve sobre: «Eden» (2014)

“Há algo nos filmes que se relaciona com o que estava a sentir na altura em que os fiz. E «Eden» acaba em 2013, apesar de quando o escrevi acabar em 2011, mas como levei dois anos para obter financiamento para o filme, alterei a data e por isso acaba em 2013. Mas até tive sorte pois isso permitiu-me utilizar uma das músicas dos Daft Punk mais recentes, que se revelou tão importante para o filme. Havia este paralelo entre a carreira do meu irmão e a dos Daft Punk. Mas isso não teria acontecido se tivesse obtido financiamento para o filme anteriormente e o tivéssemos feito logo, então o filme teria sido concluído antes do último álbum dos Daft Punk ser editado.
Este filme é muito influenciado pela realidade porque quando acaba e quando Paul abandona a carreira de DJ e inicia uma nova vida, ele não sabe como será essa nova vida, se terá um final feliz ou triste. Para mim quando o filme acaba leva-nos aos dias de hoje, à vida real, a algo fora do filme. Por isso qualquer coisa que estivesse a acontecer na nossa vida, a mim e ao meu irmão, era interessante pois ajudava-me a compreender o final do filme.”

Mia Hansen-Løve sobre: a eternidade das emoções

“O desejo de que os sentimentos sejam algo de eterno, por exemplo, amar alguém ou algo em particular e o querer que isso seja eterno. E o conflito, o saber que as coisas vão terminar, que isso vai acabar. Tudo isso tem a ver com os meus filmes. E quando lhe dizia antes que gostava de fazer um filme que não fosse sobre a passagem do tempo. Também desejava fazer um filme que não fosse sobre a vocação. Não sei se entende o que quero dizer com isto. E essa é a razão pela qual comecei a filmar, por causa dessa obsessão de fazer algo que tenha algo a ver com o invisível, aquilo que permanece e fica para além da morte. Esta crença no amor, e de que é algo eterno e da qual não te consegues livrar, algo que fica contigo, para sempre. Quer dizer, em todos os meus filmes, basicamente todas as personagens têm uma crença enorme e são fiéis. Não no sentido da traição, mas no seu íntimo têm aquela sensação de que nunca podem virar a página. Disseram-me muitas vezes que os meus filmes são sobre a tristeza e a dor da perda, mas é o contrário: são sobre a recusa da dor, são todos sobre estas personagens que são fiéis aos seus sentimentos e que nunca, mas nunca aceitam livrar-se deles. Mas, no fundo, encontram uma forma de continuar, prosseguir com esses sentimentos.”

Mia Hansen-Løve sobre: as influências e o cinema de Taiwan

“De facto, o «Millennium Mambo» foi importante para mim. Escrevi sobre ele, no «Café Lumiére». Mas não são os filmes que me formaram, mesmo que tenha olhado para eles. Os filmes que me formaram foram os da Nouvelle Vague, parte da minha cultura, do meu mundo. Os outros que falou, descobri-os mais tarde e estimularam-me muito. Descobri que havia algo que me ligava a eles, mais do que a filmes franceses contemporâneos. E isso é muito verdadeiro sobre «Millenium Mambo». Quando vi o filme, percebi que era mais sobre a minha geração, mais do que outros filmes franceses. E é estranho, porque não é evidente dizer isso e havia algo sobre a atmosfera, a realização, a aura das personagens em relação ao qual me senti mais próximo do que em relação a outros filmes sobre a juventude francesa dos anos 1990. Quando fizemos «Eden» (2014), tínhamos muito poucos filmes na nossa cabeça, o que me interessava e a ideia que tinha era da verdade sobre a juventude dos anos 1990 ou dos anos 2000, da vida noturna, esse tipo de melancolia. O interesse não era o do glamour, ou da fantasia sobre esses tempos, mas sobre a vida, a vida das pessoas”

Mia Hansen-Løve sobre: a house music

“Acho que é isso que me faz ligar a essa música: o facto de ser muito alegre, animada e ao mesmo tempo um pouco triste. Essa dualidade é o que me faz ligar a essa música, mais do que outra coisa qualquer. A house music sempre fez parte da minha vida, nunca pensei porque é que gostava dela, a música estava lá e eu apenas gostava dela, por causa do meu círculo de amigos, do meu irmão, quando era DJ e de todas as festas a que fui. Nunca o analisei, mas quando escrevi o filme: há uma sequência em que a dupla de DJ’s está numa rádio a explicar por é que gostam desta música e falam dessa dualidade, do facto de ser eufórica e melancólica e ao escrever percebi que era por isso que gostava tanto dela”

Mia Hansen-Løve sobre: a música nos seus filmes

“Se repararem a música é importante para toda a gente. Mas eu não utilizo música feita por compositores de propósito para os meus filmes. Quando se tem música composta para um filme, geralmente, ela está lá não para ser ouvida, é suposto ser invisível. É isso que não gosto nela e é por isso que sinto que estou a ser manipulada quando vejo um filme com esse tipo de banda sonora. O problema é que as pessoas deviam pensar e escrever mais sobre a forma como a música é usada nos filmes e como a banda sonora manipula o espetador. Nunca, mas nunca utilizo isso. Talvez um dia o faça, mas de momento não me imagino a trabalhar com um compositor. Não utilizo muita música, mas quando está lá é porque a personagem a ouve. Quando o espetador a ouve é porque a personagem a ouve: na maioria das vezes começa na cena em que a personagem a ouve e muitas vezes pode continuar, e quando a música continua mesmo depois da cena terminar é porque a personagem estava a ouvi-la para ele mesmo ou tinha a música na cabeça. Por isso, ouvimos a música sempre como um gesto de empatia para com o personagem, faz parte da cena, parte da realidade da personagem.”

Mia Hansen-Løve sobre: a importância da música no processo criativo

“Geralmente, tenho algumas músicas na minha cabeça, às vezes encontro música importante para o filme quase no fim do processo. Mas, habitualmente sim, penso em músicas em particular quando estou a escrever as cenas. Ajuda-me em todo o processo: para «Eden» estava a ouvir muita house music, mas também muitas das músicas dos Daft Punk – disco, e uma delas muito melancólica. Precisava de ouvi-las para escrever, estava como que dependente disso para a escrita deste argumento, ajudava-me a encontrar a energia certa, o mood a disposição certas para trabalhar, a inspiração.”

Mia Hansen-Løve sobre: a família nos seus filmes

“É difícil explicar porque faz parte de ti. É algo feito de forma inconsciente. Mas, na minha família tenho o caso do meu pai, que tem seis irmãos, e o seu pai suicidou-se. Portanto essa questão da fraqueza ou da força estava muito presente e perseguia-me. O meu pai teve de tomar conta do seu irmão e irmã, que eram mais novos, e por isso teve de crescer muito depressa muito novo. E ao mesmo tempo tinha essa figura do avô, muito frágil ao ponto de se ter matado com seis filhos. Acho que essa obsessão com a família e a fragilidade ou força da figura paternal, esse amor e admiração pelo pai tem a ver com este passado.”

Mia Hansen-Løve sobre : o próximo projeto - «L’Avenir» (2016)

“É sobre a separação dum casal nos seus 50 anos, ambos professores de filosofia, e é sobre o homem deixar a mulher (eles têm dois filhos), trocá-la por outra mulher e é também sobre a esposa que fica em casa. É ainda sobre filosofia e a relação deles com os seus alunos que se irá tornar ainda mais importante com a separação.”

Marguerite & Julien

Na muito discutida representação francesa (especialmente pela imprensa do próprio país), o filme de Valérie Donzelli surgia como o mais “ousado”: a história de um amor incestuoso filmada em tom melodramático assumidamente “antigo”. Infelizmente, quase tudo acontece num plano de banal telefilme, porventura empenhado em valorizar a dimensão “escandalosa” do seu tema. Passa por aqui a vontade de refazer um certo cinema teatral de Jacques Rivette... mas a vontade não chega.

João Lopes em Cannes

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº29)

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