logo

Entrar
Actualizado às 11:37 PM, Nov 4, 2019

Verdade

O mínimo que se pode dizer desta excelente estreia na realização de James Vanderbilt é que o “cinema liberal” de Hollywood está vivo — e bem vivo. “Liberal”, entenda-se, não designa aqui um espaço partidário, mas sim uma visão ética e estética através da qual os filmes arriscam questionar os fundamentos, e também o funcionamento, das instituições democráticas.

Esta é a história de um equívoco que abalou o espaço televisivo dos EUA, conduzindo mesmo ao afastamento da CBS de Dan Rather, símbolo universal do próprio jornalismo. Em termos esquemáticos, importa recordar que tudo passou por um logro em que Rather (Robert Redford) e a sua produtora Mary Mapes (Cate Blanchett) se viram enredados quando, em 2004, no programa “60 Minutos”, utilizaram documentos — sobre o passado militar do Presidente George W. Bush — cuja veracidade veio a ser posta em causa...

Prolongando uma tradição que pode ser sinalizada por «Os Homens do Presidente» (1976), de Alan J. Pakula, sobre o escândalo Watergate e o afastamento do Presidente Richard Nixon (curiosamente, também com Redford num dos papéis principais), «Verdade» não é apenas um filme sobre a tensão entre verdade e mentira. Através da discussão da legitimidade dos documentos divulgados em “60 Minutos”, deparamos com as nuances do próprio efeito de verdade que a televisão produz, pode produzir ou mascarar.

O mais espantoso no filme de Vanderbilt — também responsável pelo respectivo argumento, escrito a partir do livro “Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power” (2005), de Mary Mapes — é a sua capacidade de nos fazer ver/sentir que a arquitectura da verdade pode envolver tanto de revelação como de ocultação. Deparamos, assim, com uma dinâmica colectiva em que a televisão oscila entre a condição de espelho social e as ambiguidades de um sistema (de ver e ouvir) que nunca se esgota naquilo que preenche os seus ecrãs.

Tendo em conta que um filme da mesma família ideológica — «O Caso Spotlight», de Tom McCarthy — foi o principal vencedor dos Oscars referentes a 2015, importa sublinhar que estamos perante uma tradição narrativa que não desiste de observar o mundo à sua volta, resistindo também a diluir-se nas rotinas de heróis, super-heróis e afins. Em boa verdade, só podemos lamentar que «Verdade» não tenha chegado, pelo menos, às nomeações da Academia de Hollywood. 

quatro estrelas

Título Nacional Verdade Título Original Truth Realizador James Vanderbilt Actores Cate Blanchett, Robert Redford, Dennis Quaid Origem Estados Unidos/Austrália Duração 125’ Ano 2015

(Publicado originalmente na Metropolis nº37)

Mídia

Mais nesta categoria: « 10 Cloverfield Lane Carneiros »

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.