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Actualizado às 10:22 PM, Nov 12, 2019

O Filho de Saul

Consagrado com o Grande Prémio do Festival de Cannes, “O Filho de Saul” relança a questão da representação do Holocausto — este é um filme empenhado em consolidar o valor essencial da memória.

Em Cannes/2015, depois de receber o Grande Prémio do certame graças ao seu filme «O Filho de Saul», o húngaro László Nemes evocou, na conferência de imprensa dos vencedores, uma perturbante verdade: “Creio que a Europa ainda vive assombrada pela exterminação dos judeus europeus.” E acrescentou: “Na Hungria, houve muitas deportações e não creio que isso seja simplesmente uma página da História. Quis abordar a questão a partir de um ângulo diferente — era importante falar à geração dos sobreviventes, são cada vez menos numerosos.”

Sendo «O Filho de Saul» um objecto capaz de tocar as gerações mais novas, precisamente aquelas que não viveram directamente a Segunda Guerra Mundial, há nas palavras de Nemes um desconcertante, e fascinante, paradoxo. Assim, ele define o seu filme como um discurso que visa, antes do mais, aqueles que conheceram directamente a máquina de extermínio montada pelos nazis e, muito em particular, os que sobreviveram à experiência dantesca dos campos de concentração.

Eis uma estratégia que envolve, em termos cinematográficos, um insistente desejo de realismo. Para Nemes, trata-se de evocar o dia a dia de Auschwitz-Birkenau [Memorial e Museu: auschwitz.org] a partir de um olhar interior. Pertence esse olhar a Saul Ausländer (admirável composição de Géza Röhrig): ele integra o Sonderkommando do campo, ou seja, é um dos prisioneiros mobilizados pelos nazis para as tarefas do dia a dia, em particular para o transporte de cadáveres. A partir do momento em que, entre os mortos, identifica o seu filho, Saul vai lutar por impedir que o seu corpo seja lançado nos fornos crematórios, garantindo-lhe uma sepultura.

Em boa verdade, não se trata de uma “reconstituição”, pelo menos no sentido banal de mera acumulação de adereços que a palavra adquiriu. «O Filho de Saul» desenvolve-se como um labirinto de imagens vistas, ou apenas vislumbradas, a partir do olhar do protagonista. Nemes como que aposta num registo de “reportagem” em torno do seu actor principal, seguindo a crueza das suas tarefas e, nessa medida, fazendo o inventário de um universo concebido para o aniquilamento metódico de milhões de pessoas, maioritariamente judeus.

Na genealogia dos filmes sobre o Holocausto, «O Filho de Saul» ilustra a necessidade, e também a urgência, de abrir o leque de dispositivos narrativos. Assim, será importante superar uma certa herança ideológica que, mesmo na sua exigência moral, tende a favorecer uma divisão desses filmes em “puros” e “impuros”, “legítimos” e “ilegítimos” — estamos perante uma invulgar experiência cinematográfica, capaz de relançar uma demanda humana e humanista que o presente não pode dispensar. Está em jogo, ainda e sempre, o valor fulcral das memórias, incluindo as memórias do seu assombramento.

cinco estrelas

Título Nacional O Filho de Saul Título Original Saul fia Realizador László Nemes Actores Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn Origem Hungria Duração 107’ Ano 2015

(Publicado originalmente na Metropolis nº36)

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Modificado emquinta, 06 outubro 2016 20:07

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