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Actualizado às 5:53 PM, Jan 17, 2020

Cavaleiro de Copas

Ao longo de «Cavaleiro de Copas» seguimos a história fragmentada e dispersa de Rick (Christian Bale), que trabalha na indústria cinematográfica de Hollywood como argumentista. Seguimos um homem aparentemente vazio de emoções, que apenas observa ou reage mecanicamente à vida que o rodeia. Nas suas deambulações vemo-lo em diferentes contextos: com o pai (Brian Dennehy), o irmão (Wes Bentley), em festas extravagantes e quase sempre na companhia de diferentes e belas mulheres, com as quais parece ter uma ligação fugaz.

Rick é um cavaleiro andante à procura de algo, como aponta o título do filme; no tarot a carta cavaleiro/valete de copas significa a busca por um amor ou ideal, porém retrata também a falta de objetividade e realismo que muitas vezes são necessárias para compreender a situação que se está a viver. Talvez a personagem procure o sentido da sua vida, talvez o grande amor ou talvez uma pérola, como no conto infantil que o pai lhe contava. Mas, como no conto, também Rick caiu num sono profundo, numa existência dormente, sendo assim incapaz de ler claramente a situação que está a viver.
Esta é a demanda de Rick, e por conseguinte o sentido da carta, que Terrence Malick deseja registar, entrando assim novamente no campo do lirismo e do onírico, como já tinha feito nos seus trabalhos anteriores – «A Essência do Amor» (2012) e «A Árvore da Vida» (2011). Em «Cavaleiro de Copas», o realizador joga com fragmentos de cenas e de voice-over, dispersos como um baralho de cartas – também os capítulos que o dividem remetem para as cartas de tarot: O Eremita, O Sol, A Morte, são alguns exemplos. O filme acontece numa constante mudança de cenas, sem um fio linear que lhes dê sentido, o que vemos tanto podem ser flashbacks ou flashforwards, cabe-nos a nós tentar encaixar os pedaços numa ordem qualquer, participando desta forma no filme.

Porém, o carácter fragmentário do filme em vez de enaltecer o tom poético, apenas evidencia a falta de estrutura de um filme desabitado. A sua narrativa repetitiva está presa a uma personagem principal que atua quase sempre da mesma forma nas suas relações, apesar de estar com diferentes mulheres, Rick cria um padrão de comportamento autodestrutivo. Por outro lado, o uso exaustivo do voice-over como único meio de acesso ao interior das personagens, aos seus pensamentos, revela-se um fraco mecanismo, uma vez que não existe equilíbrio entre a representação e a essa voz interior, pois muitas vezes desencontram-se e isso torna as emoções e sentimentos inverosímeis. Ou seja, vemos Rick a festejar em Las Vegas, a conduzir o seu descapotável, a perseguir alegremente raparigas pelo quarto de hotel ao mesmo tempo que ouvimos a sua sorumbática voz a perguntar o que fez de errado.
Para além disso, sentimos que os próprios atores não conseguem habitar as personagens, estão perdidos – principalmente Christian Bale que tenta literalmente achar-se durante o filme –, não sabem o que fazer, sem o suporte de um enredo, daí que em muitas cenas apenas olhem, esperem a reação do outro. «Cavaleiro de Copas» é mais um projeto de Terrence Malick que não convence o público, que continua à espera de outra obra como «A Barreira Invisível» (1998).

tres estrelas

Título Nacional
Cavaleiro de Copas
Título Original
Knight of Cups
REALIZADOR
Terrence Malick
ACTORES
Christian Bale
Cate Blanchett
Natalie Portman
ORIGEM
EUA
DURAÇÃO
118´
ANO
2015

(Publicado originalmente na revista Metropolis nº36)

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