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Actualizado às 11:21 PM, Dec 4, 2019

Django Libertado

Em «Django Libertado» Tarantino volta a usar a mesma fórmula de «Sacanas sem Lei», numa tentativa inglória para construir um filme que junte o melhor de dois mundos: o holocausto histórico, e a violência bruta como entretenimento. Numa curta entrevista com Krishnan Guru-Murthy, o realizador distingue entre os dois tipos de violência presentes no seu filme: a violência real (exercida sobre os escravos), e a violência catártica da vingança sangrenta de Django (Jamie Foxx) dirigida contra os captores da sua amada Broomhilda (Kerry Washington).

Ainda durante o decorrer dos créditos, começa a primeira e talvez a mais bem conseguida sequência de um filme com quase 3 horas. Ao som do tema original do filme homónimo de Sergio Corbucci (1966), um grupo de escravos acorrentados, entre eles Django, atravessa o cenário impiedoso do deserto rochoso da Sierra Nevada. As costas maceradas pelas chicotadas servem de moldura para o título do filme. O movimento lento da câmara que acompanha pacientemente o ritmo dos presos é ocasionalmente interrompido por um rápido zoom in ou zoom out chamando a nossa atenção para as influências do western spaghetti. Outras vezes a câmara está fixa e são as personagens que na sua marcha contínua imprimem movimento e duração ao plano. Finalmente entra em cena Dr. King Schultz (Christoph Waltz), um caçador de recompensas que precisa da ajuda de Django na sua nova missão. Calmo, bem-falante, cómico e, evidentemente, mortífero (uma espécie de Hans Landa 2, mas desta feita com bom coração). Schultz liberta Django e os outros escravos e condena a uma morte dolorosa e espectacular os esclavagistas que os acompanhavam.

Esta sequência segura no ar a promessa dessa fusão dos dois mundos, e Tarantino consegue por momentos mostrar nos corpos dos escravos a subjugação, o sofrimento e o medo reais, mas também um reduto de dignidade e até de heroísmo, especialmente na expressão resiliente de Django. A entrada em cena de Dr. Schultz introduz a dimensão cómica e virtuosa das palavras e a violência catártica nas explosões de sangue. Porém este difícil equilíbrio, que requer alguma contenção, cede rapidamente sob o irresistível impulso do espectáculo. É verdade que Tarantino nunca se distinguiu pela sobriedade ou contenção, mas nem sempre no seu jogo de excessos e violência ele acaba, como aqui, por comprometer tão fatalmente a coerência narrativa e com isso o nosso envolvimento emocional na história. O claro investimento na construção de personagens carismáticas é o que primeiramente nos liga ao seu filme, mas sempre que é útil ao realizador essas personagens são despidas, literal ou metaforicamente, do seu carácter. Apesar das excelentes presenças dos actores nos papéis principais, elas são já só marionetas em que não podemos acreditar. É por isso que a última hora do filme é tão penosa.

De repente, mesmo depois de descobrir que foi enganado e gozado por um negro, etnia que ele despreza, o vaidoso e cruel Monsieur Candie (Leonardo DiCaprio) está preparado para deixar passar o episódio com o que se pode descrever como uma reprimenda. Devemos acreditar que o racional e pragmático Dr. King Schultz, que antes estava disposto a beijar a mão de Candie, se isso servisse para alcançar o seu objectivo, não é agora capaz sequer de lhe apertar a mão porque o despreza? Não foi ele que antes explicou a Django que nesta vida o mais importante é nunca sair do papel que se representa (“Don’t break character”)? Não é esta a condição essencial para que um filme desta natureza funcione?

Infelizmente nada bate certo. A única resposta que liga estes fragmentos de filme é uma mentira. Esta não é uma história de vingança, e este não é um filme que quer lidar com o terrível passado histórico da América. A lógica por detrás do filme é a dos reality shows. A repetição da repetição, a duração sem tempo de cenas inúteis, cenas de “violência real” que não têm implicações na história. Tempo precioso que serviria melhor o desenvolvimento de certos aspectos potencialmente interessantes como a relação ambígua entre Candie e a sua irmã, ou entre Stephen (Samuel L. Jackson) e Django, ou ainda, entre este e Broomhilda. Afinal não é o salvamento da rapariga o suposto motor da acção do filme?

Hildi, como carinhosamente é chamada, é uma personagem sem profundidade. É-nos apresentada através de flashbacks mas a sua introdução na acção é muito reveladora. Stephen explica ao seu senhor, Candie, que ela tentou fugir de novo e por isso está a ser castigada. Ora, a menos que as caixas quentes sejam os peellings faciais da época não se compreende como é que Hildi, depois de um dia inteiro num desses engenhos punitivos, apareça pouco depois à porta de Schultz, fresca como uma rosa. É evidente nesta cena, como em muitas outras, que a explicação está no prazer gratuito de mostrar um corpo belo, nu, humilhado e atirado como lixo para um carrinho de mão. Depois de muitas reviravoltas o final de “Django Libertado” está à altura do conjunto: as duas personagens vazias, sozinhas no palco iluminado da noite, batem palmas e fazem habilidades. Quem ligasse agora a televisão ficava a saber quem venceu o concurso.

uma estrelas

Título Nacional: Django Libertado
Título Original: Django Unchained
Realização: Quentin Tarantino
Actores: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson
Duração: 165
Ano: 2012
Origem: EUA

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