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Actualizado às 11:54 AM, Oct 8, 2019

Miss Julie

Miss Julie Miss Julie

Eros & Thanatos: muito antes de Freud ter celebrizado esta união improvável já o par tinha chamado a atenção de muitos outros pensadores e artistas. A história da arte, especialmente da pintura, está povoada de referências a este perturbador paradoxo que por certo não é desconhecido de Liv Ullmann, a eterna musa do cinema sueco. Passados quase 15 anos, ela volta agora a colocar-se atrás das câmaras para filmar mais uma história de relações conflituosas. De facto, «Miss Julie» encaixa perfeitamente nessa série de variações sobre o mesmo tema de que «Private Confessions» (1996) e «Infidelidade» (2000) fazem parte. Porém, desta vez o argumento não é de Ingmar Bergman mas de um outro ilustre sueco, o dramaturgo August Strindberg.

Baseado na peça homónima de 1888, «Miss Julie» segue de perto o texto original. A realizadora agarra a mesma natureza intimista, que acarinha, fechando ainda mais a trama sobre as três personagens de Miss Julie (Jessica Chastain), John (Colin Farrell) e Kathleen (Samantha Morton) que vemos digladiar-se em planos médios, apertados. Das interpretações extraordinárias dos actores destaca-se ainda assim a performance arrebatadora de Jessica Chastain. O seu corpo traduz neste filme uma gramática emocional que não lhe conhecia. Chastain materializa um misto dúbio de pudor e orgulho, a marca da perdição.

O perigoso jogo de sedução entre uma jovem aristocrata e um simples criado descreve de forma enganadoramente familiar um filme complexo, onde os conflitos de classe, de género, as tensões entre autoridade e desejo servem de pano de fundo para uma luta singular, entre dois indivíduos concretos. Apesar das muitas diferenças, John e Miss Julie partilham o mesmo prazer obscuro: uma espécie de gratificação na dor que deliberadamente infligem. Existem momentos de honestidade entre os dois mas mesmo essa honestidade serve de arma no projecto de destruição do outro. Uma visão muito negra em que a anulação é sinónimo de relação amorosa.

A revisitação que Ulman faz da peça mostra como, mais de um século depois da sua morte, Strindberg continua desconcertante e radical. O filme é uma dança macabra que nos leva de mão dada com a luxúria a caminhar sobre o vasto terreno instável das relações humanas. Sem sombra de dúvida, este não será o filme que melhor se adapta à lógica comercial mainstream do “dia dos namorados”, mas é uma pena a sua pouca visibilidade.

quatro estrelas

Miss Julie

Realização: Liv Ullmann
Actores: Jessica Chastain, Colin Farrell, Samantha Morton

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 26

Mídia

Modificado emquarta, 09 março 2016 23:05

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