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Montanha

É muito difícil medir a extensão do impacto que as experiências da adolescência deixam em cada um. Ao explorador intrépido servem de régua tanto a intuição cinematográfica quanto as melhores propostas vindas da psicologia ou das neurociências. Pessoal e transmissível, a viagem de João Salaviza por esse território acidentado começou em «Arena» (2009), continuou em «Rafa» (2012) – vencedoras do prémio de melhor curta-metragem em Cannes e Berlim, respectivamente – e chegou agora a «Montanha». As comparações e a busca de ligações ou continuidades entre estas obras parece tão inevitável quanto fastidiosa. Não admira, pois, que Salaviza se prepare para fazer as malas e partir com a sua câmara para uma qualquer selva remota no interior do Brasil. Este desejo de saltar para o desconhecido, revelado há poucos dias pelo realizador [ver entrevista na METROPOLIS], parece ao mesmo tempo surpreendente e bastante compreensível.

Presente na ante-estreia de «Montanha» (filme em competição no LEFFEST), Salaviza foi quem sugeriu o paralelo entre essa espécie de rito de passagem que vive o protagonista do filme – David (o fabuloso David Mourato) –, e a experiência de maturação que lhe trouxe a realização desta que é a sua primeira longa-metragem. A inexperiência é uma resposta possível para a respiração estranha do filme. Construída sobre blocos, a montagem parece às vezes denunciar uma certa hesitação na hora do corte. A multiplicação de tramas (a morte iminente do avô, a relação distante com a mãe, uma paixão não correspondida, etc.) abre demasiadas portas, coloca demasiado peso dramático sobre a personagem de David e sobre o actor que resiste como pode, ou seja, com extrema generosidade, à voragem da câmara que o segue de noite e de dia, na discoteca, na rua, na cama.

Esta relação meio predatória e passional da câmara com o David coloca o filme num limbo interessante entre o documentário e o sonho. É muito fácil perder a noção do tempo em «Montanha». O calor dilata os vários compassos de espera em casa, no carro ou nos corredores do hospital, enquanto se aguardam notícias do avô, que nunca chegamos a ver. A sombra da morte, por seu lado, acelera e torna indistinta a passagem das horas. Até que o telefone toca passaram-se dois ou dez dias? Passou tempo suficiente para que David troque de lugar com a mãe no plano final, imagem espelho da belíssima abertura do filme.

A delicada composição dos planos, os jogos de luz e de sentido negoceiam permanentemente a sua relação com a rebeldia contida na presença fulgurante do rapaz em campo. O plano semi-improvisado em que David corre sem destino por entre as ruas desertas do Bairro dos Olivais ou aquele em que se equilibra numa cadeira de rodas enquanto faz beatbox são uma verdadeira lufada de ar fresco que varre uma certa nostalgia precoce dos quartos atafulhados onde, inutilmente, as ventoinhas estão sempre ligadas.

É, evidentemente, mérito do realizador saber potenciar a extraordinária fotogenia e o talento natural do seu elenco – não apenas de David Mourato mas também de Cheyenne Domingues (Paulinha) e Rodrigo Perdigão (Rafa, o mesmo da curta-metragem homónima). Os actores, sobretudo os mais jovens, são a matéria deste filme. A modéstia visionária de Salaviza consiste em preferir sempre o imponderável elemento humano à previsibilidade do guião. Não importa aqui precisar quais foram as alterações concretas em relação ao projecto original, ou distinguir a encenação da improvisação, mas parece-me indiscutível que são eles, os miúdos, que gerem e equilibram o drama. Comigo fica o momento em que Paulinha diz a David: “Conheço-te desde os 9 anos”. Na sua boca a afirmação tem o peso de um “conheço-te há uma vida”, mas eles só têm 14, 15 anos, e, por isso, no confronto com o nosso olhar adulto, esboçamos talvez um sorriso. Depois intromete-se a memória e a irreversibilidade do tempo.

Na sua imperfeição, «Montanha» faz jus ao espírito de um velho ditado cinematográfico: “Não atraiçoem nunca os sonhos da vossa infância”.

quatro estrelas

Realização: João Salaviza
Actores: David Mourato, Cheyenne Domingues, Rodrigo Perdigão

 

 

Modificado emquarta, 09 março 2016 23:21
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