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Actualizado às 11:37 PM, Nov 4, 2019

Crimson Peak - A Colina Vermelha

A Colina Vermelha A Colina Vermelha

Ao atravessar «Crimson Peak - A Colina Vermelha» não encontraremos uma lógica de senso comum mas a lei do karma, que determina uma relação inexorável de correspondência entre aquilo que fazemos e aquilo que nos acontece. Em «Crimson Peak» as consequências de uma ação vão muito para além da vida; os fantasmas e monstros do passado violam constantemente a fronteira que separa os vivos dos mortos e vêm cravar as suas garras no presente. Não é a primeira vez que Gilhermo del Toro aborda o tema da pesada herança do passado, mas é talvez sua tentativa mais bem conseguida.

 

Num diálogo inspirado com a estética do romance gótico e o realismo extremo e macabro do Grand Guignol, del Toro mistura simbolismo e metáfora com algo muito carnal e explícito. Mais próximo de «Cronos» ou «O Labirinto do Fauno» do que das mais recentes produções em língua inglesa («Batalha do Pacífico» ou «Hellboy II - O Exército Dourado»), o novo filme foi rodado em Ontário, no Canadá, mas é ambientado entre Buffalo (NY) e o interior de Inglaterra, na viragem do século XIX para o século XX. O enredo acompanha Edith (Mia Wasikowska), uma jovem americana, aspirante a escritora, que, após seu primeiro contato com Thomas (interpretado pelo sempre surpreendente Tom Hiddleston), um nobre inglês, tão charmoso quanto falido, vê a sua vida mudar radicalmente. A súbita morte do pai de Edith em circunstâncias duvidosas precipita o casamento dos dois e a mudança para Allerdale Hall, uma mansão decrépita onde mora Lucille (um papel talhado para a bela Jessica Chastain), a misteriosa irmã de Thomas.

A atenção ao detalhe que caracteriza a fabulosa mansão e a fantástica direção de arte e figurino prometem deslumbrar Hollywood este ano. É extraordinário o modo como del Toro consegue traduzir em termos visuais a decadência dos valores de uma certa classe, as alterações nos costumes e códigos de honra que caracterizam o fim da era vitoriana. Estes conflitos estão bem patentes na cena inicial do baile, na qual Edith dança com Thomas, um momento belíssimo que faz lembrar obras como «O Leopardo» (1963), de Luchino Visconti.

Porém, este não é apenas um brilhante exercício de estilo. Os fantasmas e os terríveis segredos que Edith vai descobrir desenterram um profundo drama psicológico. Em «Crimson Peak», amor escreve-se com “A” e, mesmo entre traições e decepções, o diretor não abre mão de um olhar ultrarromântico, esculpindo esperança nas entranhas de personagens aparentemente perdidas para o Mal. O filme pode mesmo ser visto como uma ode ao bem-querer.
Suspense, ternura e medo se misturam num enredo capaz de juntar incesto, corrupção e reflexão sobre o lado negro da Modernidade. É uma conversa com a história e a literatura, sem jamais perder a mão no sobrenatural. Estamos diante de um filme de fantasmas, a promessa foi essa, e del Toro cumpre-a, com ritmo, elegância e a dose certa de pavor – para a qual muito contribuiu a fotografia de Dan Laustsen (de «O Pacto dos Lobos»). Para o diretor este pode muito bem funcionar como o seu atestado de maturidade. Para o público é uma experiência refinada e inesquecível.

Crimson Peak - A Colina Vermelha

Realização: Guillermo del Toro

Actores: Mia Wasikowska, Jessica Chastain, Tom Hiddleston

5 Estrelas

Modificado emquarta, 03 fevereiro 2016 22:26
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