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Actualizado às 2:03 PM, Nov 16, 2019

«Pássaros de Verão» - crítica

Destaque «Pássaros de Verão» - crítica

No princípio era a Palavra. Com a tela ainda negra, e enquanto rolam os créditos iniciais de «Pássaros de Verão», escutamos o canto e o sussurrar de uma língua estranha. Escutamos o som da chuva, do deserto e dos pássaros. Misturam-se diferentes estações e gerações. Estamos em La Guajira, extremo norte da Colômbia, num território hostil onde há séculos os Wayúu lutam por manter viva a sua cultura e identidade. Depois de um ano em reclusão, Zaira (Natalia Reyes) está pronta a entrar na idade adulta e a sua mãe, Úrsula (Carmiña Martínez), repete para ela as mesmas palavras que provavelmente a sua avó, e antes dela a bisavó e a trisavó repetiram às suas filhas: «Se há família, há respeito. Se há respeito, há honra. Se há honra, há palavra. Se há palavra, há paz». E o que acontece quando uma destas ligações se quebra? A resposta que «Pássaros de Verão» tem para nos dar é desoladora.

Depois do sucesso internacional de «O Abraço da Serpente» (2015), Ciro Guerra e Cristina Gallego voltam a juntar forças, desta feita para desafiar a visão estereotipada e glamorizada do tráfico de droga na Colômbia, centrando-se no impacto que este negócio criminoso terá tido nas comunidades indígenas. Entre as décadas de 1960 e 1980, período retratado no filme, o narcotráfico cresceu de forma totalmente descontrolada, trazendo simultaneamente a riqueza e a destruição de muitos. Assumindo-se como ficção, «Pássaros de Verão» resulta contudo de um longo processo de pesquisa que Guerra e Gallego começaram ainda em 2009, aquando das filmagens de «As Viagens do Vento», justamente na zona de La Guajira. Dos muitos relatos e histórias pessoais que ouviram brotou esta epopeia em cinco cantos sobre a ascensão e queda de uma família poderosa, os Pushaiana.

Visualmente deslumbrante, «Pássaros de Verão» não retrata os Wayúu como um povo impoluto e ingénuo. Sobretudo Úrsula, a matriarca do clã, ela é simultaneamente a grande guardiã dos saberes e tradições ancestrais dos Wayúu e a face mais clara da decadência desses mesmos valores. Quase se pode dizer que é a sua ambição e calculismo que despoletam toda a tragédia. Mas, claro, isso seria uma explicação demasiado simplista. À ganância e à inércia das personagens, ao amor e ao desejo é preciso juntar também o capricho do destino — e os dólares americanos. No fundo, na sua estranheza e singularidade, «Pássaros de Verão» não conta apenas a história dos Wayúu.

cinco estrelas

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