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«Ruben Brandt, Colecionador» - crítica

Destaque «Ruben Brandt, Colecionador» - crítica

A projeção começa. Vemos um caracol a surgir nos carris. Um comboio aproxima-se e uma voz sussurrada inquire: “É uma animação?” É sim, cara voz, e das muito boas. O realizador esloveno, Milorad Krstic, e a sua equipa criam um deleite para os sentidos, para a curiosidade e a fantasia humanas.

Ruben Brandt (Iván Kamarás) é um famoso psicoterapeuta que durante sonhos sofre ataques de diferentes obras de arte, isto é, existem 13 pinturas famosas que o desejam matar quando este fecha os olhos. Para conquistar os seus problemas, terá de os possuir, como diz o próprio Brandt, portanto, com a ajuda dos seus pacientes, peritos em furtos, irá encetar uma operação internacional para “adquirir” todos os seus “assassinos”. Porém terão à perna não só o detetive privado Mike Kowalski (Zalán Makranczi), mas também vários interessados em obter as recompensas milionárias pela devolução das obras furtadas.

Eis a história imaginada e escrita por Milorad Krstic, que junta o ambiente dos film noir, com o “toque e foge” dos polícias e ladrões, entrando pelo mundo onírico, e tudo desenhado por mãos hábeis que foram beber ao cubismo. Três olhos ou mais, corpos de diferentes dimensões, cabeça com duas faces, assim são as personagens, mas é o universo da animação que nos permite isto e muito mais. Um elogio à imaginação desenfreada dos artistas, sejam animadores, sejam pintores ou músicos. O filme húngaro será, então, uma homenagem, uma coleção íntima, que faz uso do pastiche ao longo da película. Por isso, um dos exercícios que poderá ser feito é o do tentar decifrar, descobrir, quer as referências cinematográficas, quer as referências e presenças de obras de arte e de música (nos créditos finais poderão confirmar as vossas suspeitas). A lista é vasta e eclética, vai desde Botticelli, Picasso ou Hopper até Mozart, Radiohead e Britney Spears – não esquecer o cinema. Horizontes amplos. No entanto, esse é um dos problemas do filme: há uma inundação de referências. Por vezes, perdemo-nos, já não sabemos para onde olhar, pois tudo nos assalta a uma grande velocidade. Muitas vezes não acompanhamos o comboio.
Todavia, no fim da animação temos vontade de o ver outra vez e ficamos à conversa com a voz sussurrada, partilhando opiniões, leituras e referências caçadas. É um belo filme que só poderia ser feito em animação, pois como refere Milorad Krstic numa entrevista: não se esqueçam que no mundo da animação, a imaginação e a beleza estão além da lógica e da verdade

[crítica publicada na revista Metropolis nº68 - Maio 2019]

quatro estrelas

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