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Actualizado às 8:54 PM, Jul 14, 2019

«Vingadores: Endgame» - Crítica

Destaque «Vingadores: Endgame» - Crítica

Ser ou não ser herói, na tragédia arrebatadora da Marvel

É impossível encarar a sequência em que Tony Stark (Robert Downey Jr., em estado de graça) desabafa sua sensação de fracasso para a máscara desfeita do Homem de Ferro sem pensar em Hamlet e sua conversa com o crânio de Yorick: é ali, no início, carregado de energias shakespearianas, que «Vingadores: Endgame» deixa evidente a sua dimensão existencialista. Há algo de corrupto no reino da Marvel, representado na figura de um titã destruidor de mundos que faz do extermínio uma forma de encarar a paz. Thanos é um Macbeth, que sujou suas mãos de pó de pessoas atomizadas, movido pela sua milady, a Morte, e, agora, coroado o soberano do vazio, reflete sobre o horror de seus atos procurando o seu equilíbrio interno. A longa-metragem anterior da franquia, o magnífico “Guerra infinita” (2018), era dele... era o seu «Trono de Sangue» (1957), bem parecido com o de Akira Kurosawa. Mas neste novo e (por enquanto) derradeiro tomo de uma saga que redefiniu a história do entretenimento nos grandes ecrãs, de 2008 para cá, percebe-se, já nos primeiros minutos, que o buraco é mais fundo, é o da náusea diante do ser ou não ser herói num mundo que perdeu o leme. Por isso, só um vigilante demasiadamente humano como Stark – um ególatra alcoólatra, incapaz de relativizar as suas noções de Bem e o Mal – pode ser o Príncipe da Dinamarca nesta tragédia anunciada sobre a reconquista da esperança. Stark é o cordeiro do deus Stan Lee (1922-2018): a imolação de sua arrogância é o dízimo a ser pago em prol da crença do altruísmo como argamassa de uma civilização de tolerância. Thor, numa interpretação memorável de Chris Hemsworth, será o bobo da corte deste espetáculo de som e de fúria, fazendo o público rir para assinalar a medida do desespero de um gladiador sem arena. Thanos destruiu o Coliseu com a sua estratégia niilista: não existe mais nenhuma batalha a ser lutada, no início deste inventário de cicatrizes dirigido na raia da excelência épica pelos irmãos Joe e Anthony Russo, porque não existem mais guerreiros. O Darth Vader dos comics apagou um punhado significativo de almas da Terra... e de todo o Universo... a fim de higienizar o Cosmos das pragas afetivas, das prepotências. Cabe ao Hefeso dos quadrinhos, Stark, o forjador, dar um sentido à falta de propósito ético que se instaurou em sua realidade com o desmantelo das diferenças e das imperfeições. Cabe a Stark forjar o caos. Daí a matéria do tocante «Avengers: Endgame» ser o Tempo. É na confluência do vetor intangível... a perenidade do existir... que o irreversível se torna reversível. O filme dos Russo não é uma trama de vingança. É a odisseia temporal de pessoas que perderam o senso de relevância para mexer numa pintura com as tintas mórbidas da plenitude e da quietude, enchendo o quadro de humanidades. Stark é o retocador. Cabe ao Capitão América, num desempenho surpreendente de Chris Evans, ser o seu artista final: preenchendo lacunas e completando pontilhados. São amigos para a vida. E é a amizade que serve de leme a uma narrativa que fecha um ciclo histórico de sucesso na Estética do audiovisual, aberto com «Homem de Ferro» (2008), de Jon Favreau, no qual Downey Jr. fez a sua carreira reencontrar os trilhos. Ao assumir como personagem central (confiado a um ator de múltiplas virtudes), a figura de um nobre assombrado pelo espectro da perda, a Marvel deixa claro a sua reta de maturidade em busca de uma trama menos calcada em onomatopeias (Soc! Pow! Pum!) e mais interessadas em verticalizar conflitos psicológicos. O seu reinado no cinema começou, silencioso, há 21 anos, quando Wesley Snipes juntou tostões para filmar «Blade – O Caçador de Vampiros», de 1998. Ali pavimentou-se o caminho para a fauna de mascarados de Stan Lee ganhar corpo e alma no cinema. Mas, desde o seminal «Logan» (2017), a Casa das Ideias (apelido da Marvel) abriu a deixa para discutir temas mais cortantes e urgentes do que o maniqueísmo. «Pantera Negra», com sua veia racial festiva, foi o ápice da transformação do estúdio na trilha do amadurecimento, seguido pelo debate acerca do empoderamento de «Capitão Marvel», com uma heroína que regressa aqui ainda mais gloriosa. Agora, com o novo “Vingadores”, temos um réquiem – sem cenas ao fim dos créditos – para um projeto de epicização fantástica das relações afetivas. Thanos, na inteligente composição de Josh Brolin, deixa de ser o Prometeu acorrentado da longa de 2018 e é repaginado como um cruel brutalista. A sua maldade assegura a verve espetacular de que o filme precisa para agradar os fãs e deixar o Homem de Ferro nos guiar pelos erros da condição humana. Filme de uma beleza singular.

cinco estrelas

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