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Actualizado às 9:40 PM, Apr 17, 2019

«A Pereira Brava» - crítica

Destaque «A Pereira Brava» - crítica

Cada novo filme do turco Nuri Bilge Ceylan surge com a promessa de uma imersão na atmosfera interior das personagens que este decide explorar – pela evidência, «Climas» (2006) e «Sono de Inverno» (2014) são títulos que espelham bem tal idiossincrasia do seu cinema. Mas isso não significa que o espectador fique preso a uma simples camada psicológica. Pelo contrário, o que mais fascina nessas personagens é a sua relação com os detalhes e a textura da paisagem física envolvente. Por sinal, algo que temos em abundância no último «A Pereira Brava», filme em que tudo se conjuga na majestosa narrativa de um regresso a casa.

Quem regressa ao lugar das suas memórias de infância é Sinan, um jovem licenciado, sem emprego, que traz consigo o manuscrito de um livro na esperança de o conseguir publicar lá na terra – porque, afinal, é sobre ela que escreve nessa prosa de cariz autobiográfico.
Mas com a dificuldade de ser publicado vem a própria experiência da redescoberta do lugarejo e das pessoas que fizeram parte da sua “outra vida”, particularmente uma jovem mulher por quem foi apaixonado e ainda reserva sentimentos. Esse encontro será o mais mágico do filme, contendo em si o lirismo dos elementos (a natureza, o vento) e a harmonia dos corpos que libertam uma energia íntima à sombra de uma árvore... Por contraste, noutro momento, Sinan aborda um famoso escritor e enceta com este uma demorada conversa que vai escalar ao ponto da irritação, fazendo sobressair a sua condição de inadaptado, ou seja, de “pereira brava”: ele não consegue absorver a mentalidade daquele meio rural.

Porém, o centro do filme acaba por ser a relação complicada entre Sinan e o pai, um professor do ensino primário viciado no jogo; personagem que acaba por ter com o filho uma ligação mais profunda e silenciosa do que o laço familiar. Digamos que nele se consubstancia a matéria do próprio cinema, a sussurrar a verdade humana. Por via desse essencial vínculo pai/filho – e pela qualidade dos diálogos, entre o prosaico e o filosófico – «A Pereira Brava» ergue-se como uma maravilhosa obra de meditação. Um filme sedutor, de uma beleza existencial que opera como uma longa divagação pelas esquinas do consciente e do inconsciente.

Longa divagação, sim, porque o tratamento do tempo em Ceylan tem uma força sui generis. Cada cena é trabalhada numa lógica de duração dilatada que nos faz entrar no “clima” da situação e acercar a dita interioridade das personagens. Dito de outra forma: cada minuto estendido de «A Pereira Brava» é fundamental para nos envolvermos num tremendo conto sobre a fragilidade de existir no lugar onde não pertencemos.

quatro estrelas

crítica publicada na Revista Metropolis nº67

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