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Actualizado às 8:54 PM, Jul 14, 2019

«Mektoub, My Love: Canto Primeiro» de Abdellatif Kechiche

Destaque «Mektoub, My Love: Canto Primeiro» de Abdellatif Kechiche

Comecemos pelas cenas de sexo, como aliás começa este canto primeiro de «Mektoub, My Love». A propósito de «A Vida de Adèle», o filme anterior de Abdellatif Kechiche, um crítico escrevia que, quando o cineasta franco-tunisino decidira abrir os grandes planos que caracterizavam a primeira hora do filme, expandindo as vistas e dando assim a ver mais corpos que rostos (nomeadamente na cena de amor protagonizada pelas atrizes Adèle Exarchoppoulos e Léa Séydoux), acabaria por expôr “uma espécie de voyeurismo menor, uma gramática erótica mais convencional”. Para o crítico, esta opção vinha quebrar com a “rigorosa e subjectiva intimidade” até aí conseguida, identificando nela um olhar masculino (“male gaze”, os mesmos termos aplicados por Laura Mulvey nas suas famosas teorias feministas sobre o cinema) e a perda de uma certa elegância.

O que dizer então quando Kechiche nos entrega de bandeja, logo ao início deste Mektoub, dois corpos despidos num cálido entrelaço adúltero capaz de enrubescer a mais vermelha das bolinhas ao canto do ecrã? Talvez que cada filme é um filme, cada olhar um olhar, e que se mostrar menos pode muitas vezes dar a ver mais, poucas regras existem neste jogo entre visível e invisível que é e sempre será o cinema. Se Kechiche mostra tudo naquele, chamemos-lhe assim, “pecado original”, talvez seja para depois explorar a sensualidade e o desejo além do puramente explícito. Desejo esse que nos parece aqui mais próximo de uma essência animal que social (as diferenças sociais pareciam ditar o fim da relação amorosa no filme anterior além de assombrarem as restantes películas de Kechiche, lembramos,). E desejo esse que o realizador filma com uma luz quase abençoada, como aquela de que falam São João e o Corão, em duas citações que faz conviver na epígrafe do filme.

Mektoub 3

Onde alguns verão uma câmara manipuladora, outros verão ausência de pudor e liberdade: provavelmente todas essas dimensões contidas na lente de Kechiche, que apesar de tudo, ou acima de tudo, parece afirmar a sua subjectividade ao girar, à flor da pele, em torno dos corpos dançantes do filme (sobretudo mulheres, em trajes reduzidos mas não tão descobertos como naquela cena inicial) e, pormenor não menos importante, ao sublinhar que atrás da câmara encontra-se um realizador, na penumbra, à procura do que só ele vê. Estamos em 1994, na vila costeira Sète, no sul da França (a mesma de «O Segredo de um Cuscuz»), seguindo as férias de verão de um jovem universitário regressado de Paris. Ele é Amin (Shaïn Boumedine), observador reservado, aprendiz de fotografia, argumentista de filmes, com uma particular afinidade com a sombra, de que necessita para revelar as suas fotografias ou nutrir a sua cinefilia, vendo por exemplo o filme dos anos 20 «Arsenal», do russo Dovzhenko. Vemos um excerto deste filme de guerra a preto e branco em Mektoub e podemos dizer que constitui o corte mais severo com a luz dourada e veranil do filme.

Mektoub 1

Se passamos tanto tempo à volta de corpos à beira mar filmados como milagres da vida, é verdade também que nos interrogamos sobre o que se passará pela alma de Amin, naquelas férias, e sobre o que de invisível esconde o seu silencioso olhar que desde o começo é o de um voyeur: é através dele que olhamos pelo buraco da fechadura (ou, neste caso, pela frecha de uma janela) e assistimos àquela ardente cena do início do filme. Será Ophélie, a sua amiga de infância hoje tornada mulher voluptuosa, um caso de amor ou um rosto e um corpo que pedem para ser fotografados por motivos que ele próprio ainda não descobriu? Poderão esses dois desejos coexistir? São algumas das perguntas lançadas por Kechiche e que ficam, felizmente, por responder.

tres estrelas

(texto originalmente publicado na Revista Metropolis nº66)

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Modificado emdomingo, 24 fevereiro 2019 16:25

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