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Actualizado às 10:58 PM, May 15, 2019

A Educadora de Infância - crítica

Destaque A Educadora de Infância - crítica

Lisa Spinelli (Maggie Gyllenhaal) é professora num jardim de infância em Staten Island. Tem 40 anos, 20 deles foram passados a ensinar. Ela é uma boa professora. As crianças gostam dela e vice-versa. Contudo, sentada numa cadeirinha minúscula na sala de aula, Lisa deixa o seu corpo falar de uma insatisfação vagarosa mas pesada que, inevitavelmente, se vai tornando dominante. Difícil de nomear com clareza, o desencanto de Lisa estende-se também à família. O marido extremoso, os filhos adolescentes e a casa nos subúrbios compõem o retrato banal de uma vida insuportavelmente banal. Como forma de escape, uma vez por semana ela apanha o ferry até Manhattan para participar num curso nocturno de escrita criativa. Os versos que partilha na aula não causam grande impressão nos colegas ou no instrutor (Gael Garcia Bernal), mas é sobretudo Lisa quem parece desapontada consigo mesma. O fosso que separa a sua enorme vontade de tocar o excepcional e a trivialidade dos seus versos é desmoralizante.

Um dia, enquanto aguarda na escola a chegada da baby-sitter, Jimmy (Parker Sevak) começa a andar de um lado para o outro e, como que em transe, diz em voz alta alguns versos que deixaram Lisa estarrecida. A beleza e elegância da composição são em si mesmas extraordinárias, mas o facto de o seu autor ser um menino de apenas 5 anos apanham-na completamente de surpresa. Estes episódios repetem-se e Lisa convence-se de que é sua obrigação proteger e estimular o talento poético deste pequeno génio. Muito rapidamente o entusiasmo dá lugar a uma perigosa obsessão que ultrapassará todos os limites.

Inesperado e original, o argumento de «A Educadora de Infância» baseia-se no filme homónimo de 2014, do realizador israelita Nadav Lapid. Sarah Colangelo transportou-o para contexto americano e, com pequenas alterações, conseguiu imprimir maior profundidade às personagens, em especial à protagonista. A interpretação de Gyllenhaal é notável. Oscilando entre o papel de mentora e de impostora, de um ser sensível ou de louca, a certa altura são muitas as dúvidas que nos assolam: será que Lisa representa de facto um perigo para a criança? Apesar de a sua conduta ser absolutamente inadmissível a verdade é que acabamos por sentir empatia por esta personagem e pela sua tentativa desesperada de encontrar um refúgio para a poesia.

Crítica publicada na Metropolis nº65

Modificado emquarta, 27 março 2019 22:50

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