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Actualizado às 4:26 PM, Jan 20, 2019

Girl

Destaque Girl

O dia escolhido para ver a projeção, numa pequena sala de cinema, longe das multidões e muitas vezes abandonada, revelou-se infrutífero: sessão esgotada. Voltamos no dia seguinte, uma hora antes para garantir lugar. Sucesso. Sala cheia. Quase um mês depois da sua estreia em terras belgas, a obra nacional continua a ser vista com entusiasmo e a conquistar mais espectadores. Falamos de «Girl », primeira longa-metragem de Lukas Dhont.

Lara (Victor Polster) é uma adolescente de 15 anos que se muda para Antuérpia com o pai Mathias (Arieh Worthalter) e o pequeno irmão Milo (Oliver Bodart) para seguir o seu sonho de se tornar uma bailarina, estudando para isso numa das melhores escolas de dança do país. Lara não só terá de suportar toda a pressão exigida pela escola, mas também conseguir lidar com todo o processo de transição de género, visto que Lara nasceu rapaz.

O tema não é novo, o realizador flamengo sabia-o, mas tinha feito uma promessa a si mesmo anos antes. Em entrevistas, Dhont explica-o, dizendo que a ideia surgiu em 2009 quando leu um artigo sobre Nora Monsecour (que surge com o elenco no Festival de Cannes), uma rapariga num corpo de rapaz que queria ser bailarina. Nesse momento disse que esta história seria a base da sua primeira longa-metragem. Pelo caminho realizou curtas que foram galardoadas no Ghent Internacional Film Festival, «L'Infini» (2014 – Melhor Curta-metragem Belga) e «Corps perdu» (2012 – Melhor Curta-Metragem Flamenga de Estudantes).

Girl 2

Mas enquanto que Nora é real, Lara é ficção. Isto não quer dizer que é menos credível, pelo contrário. Há três pontos muito fortes: o argumento, o trabalho com a câmara e a representação do protagonista. Lukas Dhont e Angelo Tijssens escreveram o argumento que gira à volta de Lara e dos seus medos, ansiedades e inseguranças de adolescente, de alguém preso num corpo com o qual não se identifica. Talvez a originalidade da escrita se encontre no facto do inimigo não ser externo a Lara, pois tem uma família, médicos e professores que a apoiam, mas sim interno. Lara versus Lara. Este conflito silencioso passa através do fantástico trabalho com a câmara de Lukas Dhont, que constrói o filme como se de um documentário se tratasse. A câmara procura sempre Lara, concentra-se nela, segue-a, tenta lê-la ou é isso que inevitavelmente nos acontece, a nós, público já rendido. E mesmo quando há cenas, momentos que se repetem, como os das aulas de dança, das idas ao médico ou de cada vez que Lara retira o adesivo dos seus genitais, os nossos olhos não se fatigam, porque é essa repetição que nos aproxima da jovem e do seu sofrimento diário.

No entanto o verdadeiro feitiço, fascínio, é a representação de Victor Polster – jovem de 16, bailarino e, até então, sem experiência como ator. Podem haver discussões sobre o facto de mais uma vez o papel de um transsexual ter sido dado a um cisgénero, porém, não se pode discutir a qualidade do trabalho de Polster. Há uma entrega tão autêntica, que por vezes esquecemos que é uma representação. Os gestos, as expressões faciais, a feminilidade saem-lhe naturalmente, brilham. Não podemos esquecer o desempenho do restante elenco que é igualmente bom, dando lugar de destaque a Arieh Worthalter e a Oliver Bodart.

A dupla Lukas Dhont e Victor Polster cativou-nos. Mas não fomos os únicos pois a lista de prémios e reconhecimento continua a crescer, desde o Festival de Cannes, ao London Festival Film e mais recentemente, como noticiaram os média belgas, «Girl» recebeu o People’s Choice Award no Pinyao Crouching Tiger Hidden Dragon International Film Festival. 

cinco estrelas

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