logo

Entrar
Actualizado às 1:09 AM, Dec 12, 2018

Praça Paris

Destaque Praça Paris

Em «Olhar Estrangeiro» (2006), Lúcia Murat entrevistou uma série de realizadores, argumentistas, actores e meros transeuntes de diferentes nacionalidades para falar sobre o modo como o Brasil é visto e retratado no cinema internacional. Indígenas da Amazónia dançando a lambada, as magníficas praias imaginadas de São Paulo ou a fixação com a sexualidade das mulheres brasileiras – que às vezes falam espanhol –, são apenas alguns exemplos de como “imprecisões ficcionais”, mais ou menos absurdas, acabam por reforçar e reproduzir estereótipos do Brasil e dos brasileiros durante décadas. Hoje, contudo, se perguntarmos a alguém na rua o que pensa quando pensa no Brasil o mais certo é que a resposta gire em torno da maldita tríade “corrupção, violência e racismo”.

Bem mais triste e inquietante, esta visão da realidade brasileira que nos chega através dos filmes, séries e manchetes de jornal continua, em boa medida, a ser-nos desconhecida. Ela é, pois, o foco principal do novo filme de Lúcia Murat, «Praça Paris». O que é curioso, e daí a minha introdução, é que também neste filme sejamos guiados pelo olhar de uma estrangeira, Camila (Joana de Verona), uma estudante portuguesa a fazer um mestrado em psicologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Na sua investigação, Camila debruça-se sobre a relação entre a violência física e socioeconómica no Brasil e a saúde mental. Apologista, em teoria, do uso da empatia como ferramenta clínica, na prática, ela parece inteiramente incapaz de lidar com as suas próprias emoções e muito menos com as dos seus pacientes.

A imensa fragilidade de Camila (já para não falar do desempenho de Joana de Verona) é tanto mais evidente quando comparada com a dimensão de Glória (extraordinária Grace Passô), sua paciente. Este confronto não opõe apenas duas pessoas diferentes mas sim duas realidades totalmente inconciliáveis. Camila, protegida pelo muro que delimita os termos da relação entre analista e paciente, tenta compreender e encaixar a brutalidade e dureza que marca a história pessoal de Glória dentro de um quadro de vitimização pré-definido. Mulher, negra, pobre, vítima de abuso sexual, Glória não se esgota nesta caracterização, neste papel, nem tão pouco se contenta em servir de objecto de estudo e de contemplação.

“É assim que você me enxerga, né? Um bicho do zoológico.” Camila desvia-se da questão devolvendo-a a Glória, mas para nós, espectadores, tornou-se de súbito muito claro que é justamente essa a dinâmica a que vínhamos assistindo. Apesar de o tentar esconder, também Camila percebe neste momento que o medo começa a tomar conta de si. O medo transforma-se em paranóia e o drama em thriller psicológico. E é neste salto que alguma coisa se quebra. Pesou, sem dúvida, a grande assimetria ao nível da qualidade das interpretações. Enquanto que os traumas de Glória são bem visíveis através da subtileza excepcional da actuação de Grace Passô (vencedora do prémio de melhor actriz em vários festivais) , a crescente paranóia de Camila parece-nos sempre um pouco fingida. Até mesmo o desentendimento com o namorado nos é mostrado ao longe, a uma distância de segurança, como que a corroborar as limitações da actriz portuguesa.

«Praça Paris» não deixa por isso de nos abrir um pouco mais a porta para a realidade brasileira e de nos convidar a pensar sobre os perigos que espreitam quando nos deixamos enredar no medo.

tres estrelas

 

[Artigo publicado na Revista Metropolis nº 63 - Outubro 2018]

Mídia

Modificado emdomingo, 02 dezembro 2018 16:34
Mais nesta categoria: « 22 de Julho Viúvas »

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.