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Actualizado às 12:40 PM, Sep 22, 2018

Manifesto

Destaque Manifesto

Pensado como uma instalação, este «Manifesto» chega agora às salas de cinema à boleia da sua estrela maior: Cate Blanchett. Interpretando 13 papéis distintos – uma professora primária, uma cantora punk, um sem-abrigo, etc. –, Blanchett dá voz a mais de meia centena de textos que incluem o manifesto comunista, passando pelas vanguardas – dadaísmo, futurismo, surrealismo, outros ismos – ou o Dogma 95. Todos estes excertos, laboriosamente reunidos por Julian Rosefeldt ao longo de vários anos, têm em comum o tom exclamativo, provocatório, impaciente, próprio do seu género.

Muito populares no século XX, os manifestos existem num limbo entre o texto e o acto, entre a busca da legitimação e o grito de revolta. Por definição circunscritos ao presente, a urgência de que se vestem pode parecer-nos à distância um tanto burlesca. Como uma “bomba desarmada”, o discurso inflamado do manifesto perde a sua força quando dissecado. Consciente disso mesmo, Rosefeldt opta por uma estratégia curiosa de total descontextualização. Assim, podemos ter uma mãe de família, muito conservadora, que à mesa recita I am for an Art... (1961), de Claes Oldenburg, no lugar de uma típica oração de graças. Uma apresentadora de telejornal que discute arte conceptual com uma repórter meteorológica no exterior (sim, Blanchett outra vez). Ou, no meu segmento preferido, uma viúva que lê um elogio fúnebre que tem por base a brilhante loucura de Tristan Tzara, Louis Aragon e de outros dadaístas.

Para lá do efeito cómico, a surpresa compele o espectador a prestar atenção a todos os pormenores: do cenário à iluminação, da caracterização aos enquadramentos. Em todos estes aspectos «Manifesto» revela-se um trabalho de grande virtuosismo, coroado, claro está, pela performance camaleónica de Blanchett. É graças ao talento e carisma da actriz que acompanhamos esta experiência do princípio ao fim. Uma experiência que tem na montagem a sua maior fragilidade. De facto, a lógica que preside à ordenação e às transições entre os 12 “episódios” é bastante ténue. Não fosse a energia cativante de Blanchett a servir de cola, corria-se o risco de nos perdermos. «Manifesto» será sempre um filme marginal, o que, ironicamente, acaba por o servir. A marginalidade continua a ser o triunfo e a derrota das obras mais radicais.

tres estrelas

 

 

Título Nacional: Manifesto Título Original: Manifesto Realização: Julian Rosefeldt Actores: Cate Blanchett Duração: 95’ Ano: 2017 Origem: Alemanha

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