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Actualizado às 10:16 PM, Apr 26, 2018

Táxi Sofia

Destaque Táxi Sofia

“Nem rei nem lei, nem paz nem guerra”, assim escreveu Pessoa e assim o filmou Stephan Komandarev («The Judgment», 2014) no seu novo filme, «Táxi Sofia», 2017.

O filme abre com a luta de um bom homem. De um taxista que tem de levar a sua filha à escola, apesar de as autoridades estarem à porta do seu antigo negócio para tudo lhe penhorarem. Depois, a película, continua noutros táxis, com outros profissionais remediados, uma vez que muitos deles têm outras profissões, como professor ou padre ortodoxo. Em «Táxi Sofia» somos transportados em diferentes fretes pelas ruas de Sofia. Somos o passageiro invisível que tudo observa, omnisciente e omnipresente. Presenciamos pedaços de histórias, quer dos taxistas, quer dos passageiros, e estas histórias, como as estradas, cruzam-se, emaranham-se e seguem, por vezes, o seu caminho paralelamente. Grande parte das cenas ocorrem dentro do veículo e com a câmara a registar tudo, sempre que possível, num one-shot. De facto, esta escolha por parte de Komandarev, confere mais verossimilhança a cada relato, retirando um excesso de melodrama a certas cenas. O filme é fragmentado, pois cada retalho apresenta um aspeto da crise social e de valores que a Bulgária está a atravessar, desde problemas económicos, de emigração, a uma profunda corrupção e violência. À primeira vista pode parecer insatisfatória esta condensação, esta quebra, porém são peças de um puzzle, sendo a forma como é filmado, o empenho dos atores e a presença da rádio, elementos unificadores. A rádio funciona não só como um fio conetor, mas também como um ator que de forma subtil interage com os outros atores. Para além desta viagem dentro do filme de Komandarev, fazemos outras viagens a outros filmes, como nomeadamente a «Taxi Driver» (Martin Scorsese, 1976), devido às suas cenas noturnas e deambulantes, e a «Taxi» (Jafar Panahi, 2015), por causas das cenas filmadas dentro do carro.

Um dos deleites é sermos conduzidos nestas histórias, nesta visão crítica e desesperançada do realizador búlgaro em relação à sua terra natal, através de uma personagem comparada a um cadáver, porque ao contrário de um doente, não pode recebe um coração novo. É uma visão dura, magoada, mas há sempre espaço para um sorriso. Não há desgraça sem um pouco de comicidade.

Entremos, então, em «Táxi Sofia» sem nos esquecermos que todas as estradas estão ligadas e que as crises são nómadas.

cinco estrelas

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