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Actualizado às 11:37 PM, Nov 4, 2019

O Fundador - A epopeia dos hamburgers

Destaque O Fundador - A epopeia dos hamburgers

Como nasceram os restaurantes McDonald's? A história, épica e desconcertante, surge agora contada num filme de grande concisão, protagonizado por Michael Keaton.

Que faz um consumidor típico dos restaurantes McDonald’s? Mantém-se fiel ao hamburger clássico? Ou procura a melhor conjugação de elementos para encomendar o menu mais económico? Arrisca nos desvios pelos pedaços de frango ou, heresia máxima, os filetes de peixe? Ou abraça o radicalismo biológico e só encomenda a variante vegetariana? Todas essas perguntas podem ser condensadas numa perplexidade filosófica que o filme O Fundador condensa com especial acutilância dramática e inteligência narrativa. A saber: de que falamos quando falamos do McDonald’s?

O primeiro mérito do filme dirigido por John Lee Hancock decorre da sua recusa de qualquer digressão “panfletária” (recorde-se que na sua filmografia encontramos, por exemplo, Ao Encontro de Mr. Banks, um curioso retrato de Walt Disney). Agora, não se trata de visar quem consome “muito” ou “pouco” do menu do McDonald’s. Trata-se, isso sim, de elaborar uma crónica ao mesmo histórica e psicológica sobre a personagem fascinante do fundador de um império gastronómico que, nos nossos dias, ultrapassou os 35 mil restaurantes em cerca de 120 países.

Aliás, a definição de Ray Kroc como “fundador” da marca McDonald’s é uma ironia sugestiva que, desde logo, o título propõe. Tudo começa em 1954 quando Kroc não é mais do que um esforçado vendedor de máquinas para fazer batidos de leite, conseguindo, aqui e ali, colocar uma modesta unidade do seu produto... Até que, um dia, recebe uma encomenda de um restaurante da cidade californiana de San Bernardino: os respectivos gestores, os irmãos Maurice e Richard McDonald, não querem uma batedeira, mas sim seis! Aliás, oito!
Quando visita aquele que é, para todos os efeitos, o primeiro restaurante identificado como McDonald’s, Kroc fica siderado pelo racionalismo, eficácia e qualidade de oferta do empreendimento. Os dois irmãos inventaram um sistema de confecção e venda que, além do mais, garante uma excepcional velocidade de atendimento. Verdadeiro empreendedor com apurado faro para o negócio, Kroc não quer vender mais batedeiras — o seu objectivo será a criação de uma sociedade a três, visando o crescimento daquele modelo de restaurante para todos os recantos dos EUA e, por fim, para todo o planeta!

Evitando revelar as peripécias do processo, por vezes irónico, muitas vezes dramático, digamos apenas que o crescimento da empresa McDonald’s nem sempre correspondeu à felicidade regional de Maurice e Richard. E que a saga de Kroc ilustra, afinal, as maravilhas e assombramentos do mais puro desenvolvimento capitalista, tendo sempre a utopia do “Sonho Americano” em pano de fundo.

Acima de tudo, a realização de Hancock sabe preservar um tom em que a dinâmica dos cifrões nunca se sobrepõe ao conhecimento real das personagens com todas as suas singularidades e contradições. No papel de Kroc, Michael Keaton oferece-nos uma composição de deliciosas convulsões. É um menu que chegou a ser tido como um bom trunfo para os Oscars — falhou por completo mas, com ou sem ketchup, vale a pena saboreá-lo.

(este texto foi publicado no Diário de Notícias (9 Março))

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