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Actualizado às 9:31 PM, Aug 22, 2019

Neruda

Destaque Neruda

“Pido castigo/para los que de sangre salpicaron la patria./Pido castigo,/para el verdugo que mando esta muerte”. Estamos em 1948, Chile, e Pablo Neruda (Luis Gnecco) é a voz do povo perseguido. Pablo Larraín («No» 2012, «El Club» 2015) filma essa voz e o homem por detrás dela, que foi perseguido pelo governo de Gabriel González Videla (Alfredo Castro). Ou seja, para além de «Jackie» (2016), o realizador chileno tem em suas mãos outra biopic. Esta situação poder-nos-ia levar a pensar que seria mais um produto biográfico no mercado, até porque é visível o desgaste do género, porém, Larraín cria desassossego e procura alternativas. Foi o que aconteceu em «Neruda».

Pablo Neruda acusa, em pelo parlamento, o governo de traição aos ideias comunistas e de se ter vendido aos Estados Unidos da América. Em consequência é colocado no seu alcance Óscar Peluchonneau (Gael García Bernal), detective da polícia. Assistimos, então, a uma fenomenal caça ao homem, um jogo do gato e do rato com um encanto de film noir, não só na construção das cenas, (destaque para os momentos dentro dos carros) mas também na fotografia (Sergio Armstrong). A receita da biopic está aqui, juntando a realidade com excelentes jogos de câmara. Mas o ingrediente secreto de «Neruda» é a ficção. Talvez seja esta a melhor maneira de retratar um poeta, a sua essência: misturando aos factos, a fantasia, a invenção literária. Sendo assim, esta não é uma biografia cinematográfica, mas um filme nerudiano, como afirmou o realizador. Todavia, outros temperos foram fundamentais como o desempenho de Gnecco, o qual é fisicamente muito semelhante a Neruda, e Bernal que tem uma presença marcante, apesar de quase sempre o ouvirmos em voice over, no seu monólogo confessional. E para finalizar uma pitada de sinceridade, ou seja, o retrato de um homem com defeitos, um ser humano maculado, mas príncipe da palavra. É um ídolo, mas um ídolo com pés de barro.

A película de Pablo Larraín é uma bela obra. Não é um exercício preguiçoso, não explora o sentimentalismo, pelo contrário, faz-nos rir e maravilhar-nos com o poeta de Canto Geral, e, ao mesmo tempo, deixa-nos assombrados com a visão de como o poder pode amordaçar a voz do povo e a sua liberdade, tanto no Chile do século XX, como agora.

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