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Actualizado às 10:34 PM, Sep 15, 2019

Águas Perigosas

Desde 1978, quando Jamie Lee Curtis fugiu das lâminas afiadas de Michael Myers no «Halloween» de John Carpenter, estandardizou-se uma tendência do horror - o slasher – na qual um psicopata movido pelo instinto de matar arrastar-se-ia por aí, portando algum tipo de instrumento cortante, à cata de sangue fresco para derramar. Estetizou-se ali que haveria sempre uma mulher como alvo do machão em questão, não tanto por uma relação de fragilidade feminina, mas sim como um sinal dos tempos, como um indicativo de que só a inteligência e o coletivo de intuições das mulheres poderia debelar uma força do mal transcendente a qualquer normativo humano. Foi assim em «Sexta-Feira 13». Foi assim em «Pesadelo em Elm Street ». Foi assim em «Gritos». E foi e será assim – sempre assim – em qualquer fita na qual um serial killer estiver faminto para conjugar o verbo matar. Até monstros sem consciência tiveram esse traço que favorecia o empoderamento femino, vide «Mimic» (1997), de Guillermo Del Toro, com Mira Sorvino nas presas de artrópodes, ou «A Relíquia» (também de 97), de Peter Hyams, com a hoje esquecida Penelope Ann Miller a correr de lagartos ameríndios. Só faltou um tipo de psicose neste pacote: a psicose animal. A psicose daquele que o cinema – via o midas Steven Spielberg – elegeu como sendo o mais feroz dos animais: o tubarão. Eis que surge «Águas Perigosas». E um ciclo se fecha.

Uma das mais talentosas atrizes de Hollywood na atualidade, capaz de ultrapassar o preguiçoso, preguiçoso o rótulo de mulher atraente ao qual foi engavetada, Blake Lively é a Jamie Lee Curtis deste thriller de horror com H2O, capaz de atualizar valores de género (sexual e cinematográfico) ao colocar uma loura como antagonista de um Norman Bates das águas. A trama é um fiapo: estudante de Medicina vai surfar nas praias do México e é acossada por um tubarão que fará de tudo para abocanhar-lhe as coxas roliças. E ao longo de 86 salíferos e feéricos minutos, ela fará de tudo para debelar a mandíbula do bicho de se fechar em volta do seu pescocinho salpicado de parafina.

É filme-pingue pong: tubarão vem, loura vai. É adrenalina em doses fartas. Mas como tem uma cabeça que pensa ação e medo por trás de tudo – a cabeça do cineasta catalão Jaume Collet-Serra, o mesmo de «A Órfã» (2009) e de «Sem Identidade» (2011) – o cozido ferve na pressão estética precisa. Há enquadramentos rigorosos. Há ritmo de edição sem descompasso com a narrativa. Há uma investigação da Natureza como fábrica de perigos, sem que isso soe antiecológico. E Jaume, que já dirigiu grandes atrizes (Vera Farmiga, Diane Kruger, Julianne Moore), sabe dar a Blake deixas – e tomadas de plano médio ou de close – para a força feminina brilhar.

quatro estrelas

Título Nacional Águas Perigosas Título Original The Shallows Realizador Jaume Collet-Serra Actores Blake Lively, Óscar Jaenada, Angelo Jose Origem Estados Unidos Duração 86’ Ano 2016

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº41)

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