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Actualizado às 2:55 PM, Oct 22, 2019

O Demónio de Neon

A estreia de «O Demónio de Neon» leva-nos a rever o percurso marcadamente violento de um realizador dinamarquês que se tem em grande conta.

Nicolas Widing Refn é considerado um dos realizadores de cinema mais promissores do momento, sobretudo devido à originalidade visual que exibe nos seus filmes. No entanto, os cépticos, consideram que Nicolas Winding Refn esconde as suas limitações e a ausência de ideias sobre cinema num estilo vistoso e formalmente muito calculado. De qualquer modo os filmes que fez distinguem-se pela perspetiva ultra violenta e valorizam personagens que procuram uma transcendência.

Nicolas Winding Refn nasceu em Copenhaga, na Dinamarca, em 1970. A sua mãe, Anders Refn, é um editora de cinema e regular colaboradora de Lars von Trier. Com oito anos, Winding Refn mudou-se, com os seus pais, para Nova Iorque. Regressou a Copenhaga para terminar o ensino secundário mas regressou a Nova Iorque inscrevendo-se na Academia Americana de Artes Dramáticas. Foi expulso por mau comportamento e solicitou admissão na Escola de Cinema da Dinamarca, onde foi aceite. Mas antes de frequentar as aulas realizou e protagonizou um curta-metragem que foi transmitida num canal de televisão por cabo. O filme impressionou e Winding Refn reuniu condições para desenvolver a sua primeira longa-metragem mesmo antes de frequentar o curso. «Pusher» (1996), um filme sobre o submundo das drogas e do crime em Copenhaga que tinha uma violência incomum. O sucesso de «Pusher» levaria o realizador a rodar mais dois filmes, completando uma trilogia em 2004 e 2005.

Desde cedo que Winding Refn, combinou as estéticas do cinema europeu e norte-americano. Essa visão levou-o a afirmar por diversas que vezes que se William Shakespeare vivesse hoje “escreveria sobre o crime e não acerca da realeza.” É uma frase reveladora do seu caráter, de alguém que se tem em grande conta.

Winding Refn ainda realizaria um segundo filme em Copenhaga – «Bleeder» (1999), um drama sobre duas histórias familiares violentas – mas rapidamente ganhou espaço fora do reino da Dinamarca. O seu primeiro filme em inglês, «Fear X – O Medo», tem John Turturro no papel de um homem que lida com os fantasmas do homicídio da sua mulher, e foi bem recebido no Festival de Sundance.

No entanto, Widing Refn só conquistaria amplo reconhecimento crítico com «Bronson» (2009), onde Tom Hardy desempenha um criminoso em solitária cuja personalidade é suplantada pelo seu ater ego, Charles Bronson. É um filme sobre o horror irracional, que foi comparado a «Laranja Mecânica», de Stanley Kubrick.

No seu filme seguinte, o realizador deixou os conflitos urbanos contemporâneos que o popularizaram e abordou uma história de guerreiros medievais. «Valhalla Rising – Destino de Sangue» (2009) segue as aventuras de um guerreiro colossal e primitivo em terras da Escócia, entre pagãos e cristãos. É um filme enigmático sobre uma viagem misteriosa carregada de silêncios e simbolismos. Por isso pode ser considerada a primeira obra com dimensão transcendente de Widing Refn.

O realizador chegaria aos 40 anos mas não entrou em crise. Na sua primeira aparição no Festival de Cannes ele ganhou o prémio de melhor realizador com «Drive –Risco Duplo» (2011). O filme marcou o seu regresso aos Estados Unidos e foi um desafio do ator Ryan Gosling, um admirador confesso do cinema do realizador dinamarquês. «Drive – Risco Duplo» é adaptado de um romance de James Sallis e Gosling interpreta um duplo de cenas de ação que durante a noite conduz um carro em assaltos. Invariavelmente é um filme violento, que conjuga o submundo do crime com uma certa marginalidade na indústria do cinema.

Gosling protagonizou o filme seguinte do realizador. Em «Só Deus Perdoa» (2013), interpreta um homem exilado em Banguecoque, na Tailândia, que se vê obrigado a vingar a morte do irmão, desafiando o mais temível e implacável polícia da cidade. É um jogo de violência realizado com enorme austeridade verbal e visual.

O realizador regressou aos Estados Unidos e fixou o seu olhar no mundo glamoroso da moda. «O Demónio de Néon» (2016) é um filme de terror sobre uma jovem aspirante a modelo cuja vitalidade e juventude desperta os piores sentimentos de outras mulheres. Amado e detestado, tenderá a ser o filme mais controverso do realizador. Seguramente que Refn não se sente desconfortável por ter forçado os limites da compreensão dos espectadores e da crítica através de um filme grotesco e elegante. Hoje podemos vê-lo como um esteta demoníaco, o que ainda não faz dele um cineasta.

tres estrelas

Título Original The Neon Demon Realizador Nicolas Winding Refn Actores Elle Fanning, Keanu Reeves, Christina Hendricks Origem Estados Unidos/França/Dinamarca Duração 102’ Ano 2016

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