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Actualizado às 11:49 PM, Nov 20, 2019

Ricki e os Flash

A ligação de Jonathan Demme à música tem qualquer coisa de visceral. É verdade que ele sabe integrar como poucos as matérias musicais nas bandas sonoras, de modo a servir a lógica global das narrativas. E não é menos verdade que a sua visão das performances musicais (filmando, por exemplo, os Talking Heads ou Neil Young, respectivamente em «Stop Making Sense» e «Heart of Gold») transcende as convenções televisivas da maior parte dos “making of”. Seja como for, Demme é um cineasta especialmente atento à música como componente da dinâmica corporal — apetece dizer: ele sabe filmar a música enquanto se faz corpo.

«Ricki e os Flash» é a apoteose disso mesmo. Por uma razão muito forte, por certo, chamada Meryl Streep: no papel de uma veterana do rock (Ricki) que vive mais com e para a sua banda (The Flash) do que com a sua desagregada família, ela é um prodígio de transfiguração — sabe cantar com genuína intensidade e, mais do que isso, sabe compor uma personagem em que a música existe como uma espécie de identidade poética, poeticamente assombrada.

Mas é também um filme em que o movimento musical contamina, por assim dizer, todos os planos da acção. Isto porque Demme é o cineasta de uma musicalidade dos sentimentos e das relações que transcende as evidências banalmente “psicológicas”. Em tempos de outra felicidade cinematográfica, isso tinha um nome nobre: Melodrama. Hoje em dia, para nossa maior desgraça, a palavra é sobretudo aplicada por aqueles que julgam que há nela uma lógica irremediavelmente pejorativa.

Demme consegue, assim, desenhar o retrato de uma família à deriva, à procura da sua coerência imaginada ou imaginária, preservando uma energia à flor da pele que passa, antes de tudo o mais, pela excelência dos actores, incluindo Mamie Gummer, filha de Meryl Streep, interpretando o papel de filha de Ricki. Um pouco à maneira do também brilhante O Casamento de Rachel (2008), com Anne Hathaway, a câmara deambula pelos cenários numa atitude a que apetece chamar de “reportagem”, não se desse o caso de a espontaneidade que observamos envolver um minucioso labor de composição do espaço e do tempo. Enfim, em tempos de formatação telenovelesca, Ricki e os Flash é a prova muito real de que há outras maneiras de encenar — e tentar compreender — as convulsões do espaço familiar.

Título Nacional Ricki e os Flash Título Original Ricki and the Flash Realizador Jonathan Demme Actores Meryl Streep, Kevin Kline, Mamie Gummer Origem Estados Unidos Duração 101’ Ano 2016

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº31)

Mídia

Modificado emsexta, 12 agosto 2016 00:43
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