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Actualizado às 10:13 PM, Aug 20, 2019

Rainha do Deserto

Face aos resultados desequilibrados, mas ao mesmo tempo muito motivadores, de «Rainha do Deserto», não podemos deixar de recordar que a obra do alemão Werner Herzog sempre evoluiu “condicionada” por duas componentes muito particulares: em primeiro lugar, um obstinado gosto documental que o leva, por vezes, a enfrentar desafios de fascinante radicalismo (lembremos o seu documentário «A Gruta dos Sonhos Perdidos», lançado em 2012, sobre as grutas Chauvet no sul de França); depois, o envolvimento em projectos de ficção que implicam invulgares meios humanos e logísticos (sendo «Fitzcarraldo», de 1982, sobre a construção de um teatro de ópera no meio da selva, o exemplo mais emblemático).

«Rainha do Deserto» nasce dessa mesma dinâmica. Trata-se de fazer o retrato de Gertrud Bell (1868-1926), arqueóloga inglesa que acabou por ter um papel decisivo nas políticas do Império Britânico entre os dois conflitos mundiais, em particular na constituição da Jordânia e do Iraque. É fácil compreender tudo aquilo que seduziu Herzog. Afinal de contas, para além da sua condição de mulher a afirmar-se num mundo quase totalmente ocupado e gerido por personagens masculinas, Bell foi também alguém que viveu directamente, por vezes com risco da própria vida, um tempo em que todos os mapas — geográficos, diplomáticos e simbólicos — foram reconvertidos de modo mais ou menos radical.

Centrado numa bela composição de Nicole Kidman, o «Rainha do Deserto» é claramente desigual na prestação dos seus actores; Robert Pattison, em particular, tem evidentes dificuldades em sustentar a personagem de T. E. Lawrence — e escusado será dizer que a comparação com Peter O’Toole, em «Lawrence da Arábia» (1962), está longe de o favorecer...

Além do mais, o filme parece ressentir-se daquilo que terá sido a “aceleração” da própria rodagem (e sabe-se que houve problemas vários na organização da sua produção). São especialmente débeis as cenas de ligação dos vários capítulos, em particular no modo como nos dão a ver o contexto paisagístico da acção (e não será arriscado supor que tal seria um elemento fundamental na mise en scène de Herzog). Ao mesmo tempo, «Rainha do Deserto» faz-nos aceder a um labirinto de personagens e culturas do Médio Oriente que importa contemplar para além de qualquer cliché mediático (e, em particular, televisivo). Nesta perspectiva, o filme consegue mesmo a proeza de nos levar a pressentir que muitas das convulsões do nosso presente têm as suas raízes na época em que Gertrud Bell foi uma tão especial protagonista.

tres estrelas

Título Nacional Rainha do Deserto Título Original Queen of the Desert Realizador Werner Herzog Actores Nicole Kidman, James Franco, Robert Pattinson Origem Estados Unidos/Marrocos Duração 128’ Ano 2015

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº39)

Mídia

Modificado emterça, 28 junho 2016 23:01
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