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Actualizado às 10:13 PM, Aug 20, 2019

Moonlight - crítica

Numa altura em que a corrida aos Óscares está ao rubro e em que o foco está apontado para o musical «La La Land» que conseguiu, inclusive, captar a empatia dos fãs mais céticos, é delicada a situação de qualquer outro filme que está igualmente na passadeira vermelha, a sentir os flashes a dispararem noutra direção. É aí que está «Moonlight», de consciência tranquila, sem arrogância ou falsa modéstia. Sabe que o que tiver de ser seu será e sabe também que, apesar de não estar em campanha, já muitos corações foram tocados e isso basta-lhe.

Dito isto, aquela que é a segunda longa-metragem do realizador Barry Jenkins, apesar da sua humildade e discrição na corrida, já venceu o Globo de Ouro para Melhor Filme Dramático e está a competir em oito das categorias mais importantes das estatuetas douradas, entre elas, a de Melhor Filme, Melhor Ator e Atriz Secundários, Melhor Realizador e Melhor Argumento Adaptado. Palpites de lado, «Moonlight» é um dos filmes do ano e tirar-lhe essa categoria seria, no mínimo, injusto.

«Moonlight» é vencedor na forma simples como trata algo complexo. É hipnotizante na contenção dos atores que dão vida a Chiron nas suas várias etapas de vida. É difícil de explicar porque se entranha e nos convida a ficar e a seguir os seus passos quando não sabemos para onde vamos, mas simplesmente sabemos que queremos ficar.

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A ação decorre num bairro perigoso de Miami, Liberty City, no qual vingam os traficantes e onde a raça negra parece estar confinada a remotas oportunidades na sociedade. Aí, conhecemos Chiron (Alex R. Hibbert), que todos tratam por Little, com 10 anos, perdido de si e inserido numa comunidade em que poucos o entendem, mas todos têm uma palavra a dizer sobre a sua orientação sexual, algo que nem o próprio ainda descobriu. Vítima de bullying e perseguições na escola, encontra segurança e o conforto de um “lar” na vida do traficante Juan (Mahershala Ali) e da sua esposa Teresa (Janelle Monáe). Anos mais tarde, já na adolescência, a sua personalidade contida apenas se apurou e os seus olhos continuam perdidos no vazio de um lar desfragmentado, que divide com uma mãe toxicodependente. Agora Chiron (Ashton Sanders), o jovem mantém-se à parte e alienado de todos aqueles que pensam saber o que é “normal”, mas um evento específico (um dos mais marcantes do filme) mudará a sua vida para sempre. No seu estado adulto, Chiron (Trevante Rhodes) já não é Little nem Chiron, é Black, um homem feito, musculado, enfeitado com fios e uma dentadura de ouro, um verdadeiro dealer de rua.

Apesar de se ter transformado no produto corrompido da sociedade, Chiron continua a denunciar no olhar a sua fragilidade comovente, que nos faz sentir vontade de o apoiar em qualquer uma das suas escolhas. Chiron tem um pouco de todos os que são constantemente desafiados a aceitar quem são e que sobrevivem num mundo que parece ter perdido a fé na humanidade.

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«Moonlight» é o casamento perfeito entre a peça de Tarell Alvin McCraney e a visão de Barry Jenkins que, apesar de não se conhecerem antes, cresceram no mesmo bairro, partilhando as mesmas raízes e os mesmos dramas parentais (as mães de ambos sofreram de problemas de toxicodependência e contraíram SIDA). Depois de «Medicine for Melancholy», o realizador vai de novo às minorias, desta vez para uma problemática raramente vista em cinema: a homossexualidade numa comunidade tão intransigente como a dos Afro-Americanos confinados aos bairros problemáticos, em que a virilidade é uma arma.

Apostando num elenco com ligação a esta realidade, Jenkins acerta em cheio. Apesar de existirem três épocas, todos os atores são diferentes, mas existe algo de Chiron em todos eles e que o público consegue reconhecer, seja o olhar despido de maldade, seja a doçura escondida na existência amarga, seja a necessidade de compaixão da sua personalidade contida e implosiva.

A breve presença de Mahershala Ali justifica a sua nomeação de Melhor Ator Secundário, pois é no suporte dele que reconhecemos o que gostaríamos de fazer por Chiron e é a quem somos gratos por lhe dar as bases que um pai deveria dar. Naomie Harris está igualmente nomeada pelo seu papel da mãe toxicodependente que não consegue salvar Chiron e, apesar de já ter dado provas do seu talento, existe algo de sobrecarregado na personagem que já não é novo.

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Um último apontamento para a cinematografia de James Laxton que, em tom metafórico, abusa da luz pálida do dia, como se a vida fosse algo sem grandes distrações, seguindo apenas o seu rumo. Mas é na luz da noite e da lua que a verdadeira essência vem ao de cima.

Produzido por Brad Pitt, «Moonlight» é sobre a falta de oportunidades e sobre a forma como continuamos a esconder a verdadeira identidade, com medo de não cabermos no molde que a sociedade definiu. É sobre a autodescoberta, sobre a (falta de) confiança em nós e no mundo, sobre a falta de tolerância e compaixão; é sobre a ausência de aceitação e o enaltecer de dogmas e crenças limitadoras de uma sociedade que resiste em aceitar a diferença. Na verdade, é precisamente na diferença que está a unicidade de cada um e é isso que nos torna na pequena, mas essencial, peça da engrenagem que é a vida.

cinco estrelas

Título Nacional Moonlight Título Original Moonlight Realizador Barry Jenkins Actores Mahershala Ali, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Janelle Monáe, Naomie Harris Origem Estados Unidos Duração 111’ Ano 2016

Oscars abençoados pela música?

Não sou entusiasta de «La La Land», confesso. Mesmo reconhecendo o interessante risco de mise en scène assumido por Damien Chazelle, ao invocar a memória dos grandes clássicos do musical, ele leva-nos a inevitáveis comparações. Mas como comparar o esforçado formalismo do seu trabalho com a excelência formal de «Serenata à Chuva» (1952), de Gene Kelly e Stanley Donen, ou «A Roda da Fortuna» (1953), de Vincente Minnelli?

Dito isto, há que reconhecer que o território dos Oscars está, este ano, marcado por «La La Land». Será a Academia abençoada por este retorno do musical? Conseguirá relançar as audiências televisivas da sua cerimónia anual? E, nesse processo, a apresentação de Jimmy Kimmel, figura pouco conhecida de muitos espectadores fora dos EUA, poderá aproximar-se da aura nostágica de outros espectáculos já algo distantes?

Acima de tudo, vale a pena combater o infantilismo jornalístico: as nomeações dos Oscars não se medem em função de eventuais coincidências do “meu” ou do “teu” gosto... São, afinal, emanações de um gigantesco colectivo — este ano há 6678 membros da Academia de Hollywood com direito a voto — que, de uma maneira ou de outra, reflectem o dinamismo de toda uma comunidade.

Registe-se, em particular, a escolha dominante de títulos de cariz mais ou menos independente. Nos nove nomeados para melhor filme, dos artifícios de «La La Land» à respiração melodramática de «Manchester By the Sea», passando pela intensidade emocional de «Moonlight» (espantoso filme!), encontramos testemunhos de uma pluralidade criativa que está para além de qualquer visão banalmente tecnicista, dominada por super-heróis e efeitos especiais.

Entretanto, que é feito de «Silêncio», de Martin Scorsese? Pois bem, teve uma única nomeação (fotografia, Rodrigo Prieto). Enfim, tentemos não estragar a festa de Hollywood e mudemos de assunto...

  • Publicado em Feature

«La La Land» lidera Oscars com 14 nomeações

As nomeações para os Oscars foram anunciadas esta terça-feira às 13h30 (hora de Portugal).

«La La Land» lidera com 14 nomeações, igualando o recorde previamente estabelecido por «All About Eve» em 1950 e «Titanic» em 1997.

Outros candidatos incluem «Arrival» e «Moonlight» (com oito cada), «Hacksaw Ridge», «Lion» e «Manchester by the Sea» (com seis cada) e «Fences» e «Hell ou High Water» (com quatro cada).

Jennifer Hudson, Brie Larson, Emmanuel Lubezki, Jason Reitman e Ken Watanabe juntaram-se ao presidente da Academia, Cheryl Boone Isaacs para quebrar a tradição recente e introduzir os nomeados às 24 categorias para a 89ª cerimónia dos Oscars.

AS cerimónia dos prémios da Academia têm como anfitrião Jimmy Kimmel e terão como palco o Dolby Theatre em Hollywood a 26 de fevereiro.

A lista de nomeados:

The Oscars 2017

 

O Filho de Saul

Consagrado com o Grande Prémio do Festival de Cannes, “O Filho de Saul” relança a questão da representação do Holocausto — este é um filme empenhado em consolidar o valor essencial da memória.

Em Cannes/2015, depois de receber o Grande Prémio do certame graças ao seu filme «O Filho de Saul», o húngaro László Nemes evocou, na conferência de imprensa dos vencedores, uma perturbante verdade: “Creio que a Europa ainda vive assombrada pela exterminação dos judeus europeus.” E acrescentou: “Na Hungria, houve muitas deportações e não creio que isso seja simplesmente uma página da História. Quis abordar a questão a partir de um ângulo diferente — era importante falar à geração dos sobreviventes, são cada vez menos numerosos.”

Sendo «O Filho de Saul» um objecto capaz de tocar as gerações mais novas, precisamente aquelas que não viveram directamente a Segunda Guerra Mundial, há nas palavras de Nemes um desconcertante, e fascinante, paradoxo. Assim, ele define o seu filme como um discurso que visa, antes do mais, aqueles que conheceram directamente a máquina de extermínio montada pelos nazis e, muito em particular, os que sobreviveram à experiência dantesca dos campos de concentração.

Eis uma estratégia que envolve, em termos cinematográficos, um insistente desejo de realismo. Para Nemes, trata-se de evocar o dia a dia de Auschwitz-Birkenau [Memorial e Museu: auschwitz.org] a partir de um olhar interior. Pertence esse olhar a Saul Ausländer (admirável composição de Géza Röhrig): ele integra o Sonderkommando do campo, ou seja, é um dos prisioneiros mobilizados pelos nazis para as tarefas do dia a dia, em particular para o transporte de cadáveres. A partir do momento em que, entre os mortos, identifica o seu filho, Saul vai lutar por impedir que o seu corpo seja lançado nos fornos crematórios, garantindo-lhe uma sepultura.

Em boa verdade, não se trata de uma “reconstituição”, pelo menos no sentido banal de mera acumulação de adereços que a palavra adquiriu. «O Filho de Saul» desenvolve-se como um labirinto de imagens vistas, ou apenas vislumbradas, a partir do olhar do protagonista. Nemes como que aposta num registo de “reportagem” em torno do seu actor principal, seguindo a crueza das suas tarefas e, nessa medida, fazendo o inventário de um universo concebido para o aniquilamento metódico de milhões de pessoas, maioritariamente judeus.

Na genealogia dos filmes sobre o Holocausto, «O Filho de Saul» ilustra a necessidade, e também a urgência, de abrir o leque de dispositivos narrativos. Assim, será importante superar uma certa herança ideológica que, mesmo na sua exigência moral, tende a favorecer uma divisão desses filmes em “puros” e “impuros”, “legítimos” e “ilegítimos” — estamos perante uma invulgar experiência cinematográfica, capaz de relançar uma demanda humana e humanista que o presente não pode dispensar. Está em jogo, ainda e sempre, o valor fulcral das memórias, incluindo as memórias do seu assombramento.

cinco estrelas

Título Nacional O Filho de Saul Título Original Saul fia Realizador László Nemes Actores Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn Origem Hungria Duração 107’ Ano 2015

(Publicado originalmente na Metropolis nº36)

Oscars 2016 - Melhor Documentário - Amy

Asif Kapadia e James Gay-Rees receberam o Oscar de Melhor Documentário por Amy lembrando que fizeram um documentário de uma mulher que era muito mais do que a figura retratada nos tabloides.

Nomeados

Amy (Vencedor)
Asif Kapadia

Cartel Land
Matthew Heineman

O Olhar do Silêncio
Joshua Oppenheimer

What Happened, Miss Simone?
Liz Garbus

Winter on Fire
Evgeny Afineevsky

Oscars 2016 - Melhor Fotografia - The Revenant (Emmanuel Lubezki)

O terceiro Oscar consecutivo para Emmanuel Lubezki por «The Revenant - O Renascido», partilhou o galardão com o seu "compadre" Alejandro González Iñárritu e Leonardo DiCaprio pela sua performance. Ainda agradeceu aos restantes directores de fotografia nomeados na sua categoria.

Nomeados

Carol
Edward Lachman

Mad Max: Estrada da Fúria
John Seale

Os Oito Odiados
Robert Richardson

Sicario - Infiltrado
Roger Deakins

The Revenant : O Renascido (Vencedor)
Emmanuel Lubezki

Oscars 2016 - Melhor Realizador - Alejandro González Iñárritu The Revenant

Alejandro González Iñárritu partilhou o Oscar com a equipa técnica e o elenco agradecendo do fundo do seu coração. Acrescentou que Leonardo DiCaprio é o "renascido" e agradeceu a Tom Hardy e aos nativos americanos que participaram no filme e a "Chivo" [Emmanuel Lubezki] por trazer a luz ao filme. Finalizou dizendo que ele era um homem de sorte e esta é uma oportunidade de uma geração se libertar dos preconceitos da cor da pele.

Nomeados

Adam McKay
A Queda de Wall Street

Alejandro González Iñárritu (Vencedor)
The Revenant : O Renascido

George Miller
Mad Max: Estrada da Fúria

Lenny Abrahamson
Quarto

Tom McCarthy
O Caso Spotlight

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