logo

Entrar
Actualizado às 9:31 PM, Aug 22, 2019

The Revenant

O impacto de «The Revenant: O Renascido» transcende as fronteiras do ecrã. Não é um filme, é uma experiência religiosa. A Santíssima Trindade é formada pelo realizador Alejandro González Iñárritu, o director de fotografia Emmanuel Lubezki e o actor Leonardo DiCaprio.

Baseado no argumento de Mark L. Smith, trabalhado durante cinco anos pelo consagrado realizador mexicano Alejandro González Iñárritu, «The Revenant: O Renascido» faz-nos recuar 200 anos e coloca-nos perante uma América inexplorada e selvagem, numa composição que é um clássico moderno de um filme de fronteira. Inspirado na lendária história de sobrevivência de Hugh Glass, um explorador notável, exímio caçador e comerciante de peles que é abandonado e dado como morto por membros do seu grupo após ter sido atacado por um urso pardo, o filme introduz outros elementos ficcionais, como a relação de Glass com o seu filho mestiço. A crueldade de que o rapaz será vítima farão Glass interrogar-se se a vingança será suficiente para sarar a ferida aberta. A intromissão de memórias de um passado traumático, pintado em tons surrealistas, e onde há laivos de Terence Malick, acrescenta uma maior densidade à acção. A história de vingança é o ponto de partida para percorrer cenários remotos, reais e usualmente afastados do grande ecrã na era do digital onde as filmagens com luz natural e a rodagem em sequência cronológica – do Outono a um Inverno rigoroso –, trazem à tela muito gelo, nevoeiro, chuvas e nevões que não são fictícios. Estas condições extremas foram um verdadeiro tour de force para o elenco e a produção mas um deslumbre para o nosso olhar.

«The Revenant» deixa o poder das imagens falar por si. Ficamos siderados com este recuo aos primórdios do cinema. Vem à memória a ingenuidade do épico «Tabu», de F.W. Murnau, ou, mais recentemente, «As Brancas Montanhas da Morte» (1972), de Sydney Pollock, mas é o «Novo Mundo», de Terence Malick, o filme que não só em termos visuais mas também temáticos mais se aproxima deste relato que retrata o fim da inocência no cruzamento do homem branco com os nativos americanos e explora o diálogo com a natureza. Além disso, e não é um pormenor, «The Revenant» partilha o mesmo director de fotografia, Emmanuel Lubezki.

Parco em palavras, o filme espelha a relação do homem com a natureza em acções que têm ressonância na sociedade moderna. Passados quase 200 anos, observamos práticas que ainda são comuns no nosso mundo: o consumismo desenfreado, a xenofobia e o desrespeito pelo meio ambiente. Alejandro González Iñárritu filmou e retratou os nativos americanos com dignidade, estes não são os típicos índios retratados pelo cinema clássico, não são os “maus da fita” nem motivo para o velho dualismo “índios versus cowboys”. Neste caso são seres humanos, com a sua agenda própria e com divisões profundas entre as várias tribos. A sub-trama deste filme gira em torno dos nativos e envolve um rapto, aspecto que é também baseado em factos verídicos.

O filme faz-nos embarcar na viagem de Hugh Glass sobre os limites da chacina, coloca-nos junto com a personagem no centro da espiral de violência, mas é nesse centro, no olho do furacão, que o perdão se mostra como força redentora. A obra não faz disso uma bandeira e não serve para nos dar lições de moral mas está omnipresente o peso dessa questão no final desta jornada épica. O que se inicia como uma viagem de vingança torna-se uma obra de redenção.

As condições ambientais rigorosas em que os actores trabalharam contribuíram de certa forma para adicionar mais ímpeto e até um lado visceral às performances. Tom Hardy está novamente brilhante como John Fitzgerald, um pragmático ignorante que apenas quer salvar a sua pele – mais uma vez tiramos o chapéu ao brilhantismo do argumento ao evitar retratar o personagem de modo maniqueísta. Domhnall Gleeson também dá cartas com seu desempenho como o líder da expedição, o Captão Andrew Henry que segue a honra e o dever perante homens preparados para fazerem tudo. Gleeson é um actor a seguir no futuro, especialmente se tivermos em conta o seu desempenho em «Star Wars: O Despertar da Força». Mas a verdade é que todos ficam distantes da performance imperial de Leonardo DiCaprio. A sua entrega ao personagem é total. Mesmo com poucas linhas de diálogo, tudo assenta na forte presença física e na intensidade do seu olhar. Se o Oscar lhe fugir teremos em mãos um caso de polícia.

À semelhança de «Birdman», o último trabalho de Alejandro González Iñárritu em conjunto com Emmanuel Lubezki, o seu director de fotografia, «The Revenant» também é uma obra a duas mãos. Iñárritu e Lubezki são dois artistas visuais em perfeita sintonia, as técnicas de uma câmara deambulante em cima dos personagens e que nos leva ao amago da acção e das emoções contemplando o espaço a 360 graus advém muito deste “mestre da luz” que é Emmanuel Lubezki. «The Revenant» dificilmente poderia ter sido produzido com outro realizador (rodar numa centena de localizações em regiões remotas durante um ano?!), no entanto a coragem do estúdio é premiada por um triunfo magistral do cinema. «The Revenant» é um intenso espectáculo visual e um testemunho da coragem humana face às enormes contrariedades da vida.

Título Nacional: The Revenant: O Renascido
Título Original: The Revenant
Realização: Alejandro González Iñárritu
Actores: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Will Poulter
Duração: 156’
Ano: 2015
Origem: EUA
Classificação: 5

 

Trumbo - trailer oficial

Nos anos 40, a carreira de sucesso do argumentista Dalton Trumbo (Bryan Cranston) chega a um fim quando ele e outras figuras de Hollywood entram na lista negra pelas suas convicções políticas. TRUMBO (realizado por Jay Roach) conta a história da sua luta contra o governo norte-americano e os patrões dos Estúdios, numa guerra pelas palavras e a liberdade, que envolveu todos em Hollywood, desde Hedda Hopper (Helen Mirren) e John Wayne, até Kirk Douglas e Otto Preminger.

Um filme com um elenco onde, para além de Bryan Cranston e Helen Mirren, encontramos Diane Lane e John Goodman.

  • Publicado em Videos

Anomalisa

O amor é uma anomalia. De repente, do meio da multidão anónima, vulgar, surge um ser que se distingue de todos os outros. A sua singularidade faz colapsar o tempo e o espaço. Para aquele que ama, ele é o centro do universo. Todo o universo. Absoluto, misterioso, incomparável. A resposta para a existência. Depois chega a manhã.

Kaufman não é um cínico, mas ele conhece bem as suas personagens, e «Anomalisa» não é um filme sobre o amor, ou sobre Lisa (o sufixo no título). Este filme, como quase todos os que Kaufman já escreveu ou realizou, é sobre um homem virado para dentro.

O argumento nasceu de um texto escrito para ser lido em palco – uma espécie de peça de teatro falado – que Kaufman criou em 2005 sob o pseudónimo de Francis Fregoli. Passados 10 anos, e depois do fracasso de bilheteira de «Sinédoque, Nova Iorque» (2008), Kaufman escapou aos constrangimentos dos estúdios e conseguiu dar nova vida à sua história através de um processo de crowdfunding. A escolha do formato, a animação em stop-motion, é também por isso bastante curiosa. Numa produção tão pequena, em que não há espaço para derrapagens orçamentais e se avança à velocidade estonteante de 2 segundos por dia, cada plano é um plano. Fazer cinema assim aproxima-se de um acto de fé.

É comovente testemunhar em cada gesto, em cada cambiante de luz todo o empenho e persistência da extensa equipa de animadores, escultores, técnicos de luz e de som que fizeram de «Anomalisa», como já se disse, o filme mais humano que temos em sala. O que é que quer dizer “mais humano” ou, simplesmente, “humano”? Esta é a questão com que o protagonista do filme, Michael Stone (voz de David Thewlis), se debate.

Oscars 2016 - Elogio da diversidade

Bem sabemos que os Oscars (e, de um modo geral, a chamada temporada de prémios) passaram a ser condicionados pelas campanhas de estreias do último trimestre. Na prática, casos como a vitória de um filme como O Silêncio dos Inocentes parecem hoje impossíveis: ganhou na 64ª cerimónia, realizada no dia 30 de Março de 1992, tendo estreado nas salas dos EUA mais de um ano antes, a 14 de Fevereiro de 1991...

É pena, quanto mais não seja porque aquilo que assim se perde é, de facto, a perspectiva global de um ano de cinema, com todas as atenções focadas (apenas) naquilo que aconteceu no mercado sensivelmente a partir de Setembro.
Seja como for, convém não favorecer formas de hipocrisia há muito instaladas: os prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood voltam a conseguir, através das suas nomeações, gerar um sedutor panorama de diversidade. Podemos sentir-nos desconsolados com algumas ausências (The Walk/O Desafio ficou a zero...), mas encontramos um panorama em que as produções mais sofisticadas (a começar por The Revenant) não excluem os objectos mais ou menos independentes, com actualíssimas ressonâncias sociais e políticas (incluindo A Queda de Wall Street e O Caso Spotlight).


A sublinhar: a presença de um filme de animação para adultos (Anomalisa) na lista de nomeados na respectiva categoria. Essa pode ser, afinal, uma nova fronteira temática e de produção: animações que apostam para além do tradicional mercado infantil e juvenil. Será possível que Anomalisa contrarie o claro favoritismo de Divertida-Mente?

Embrace the Serpent

Uma das sensações da Quinzena dos Realizadores, de onde saiu com o Prêmio C.I.C.A.E., esta exuberante produção em preto e branco, com direção de Ciro Guerra («Los Viajes Del Viento»), colocou a Colômbia no centro das atenções do planisfério cinéfilo ao subverter conceitos etnográficos da observação de espécies indígenas. Parente distante de «Fitzcarraldo», de Werner Herzog, em sua observação sobre a lucidez no limite do risco, o longa-metragem é narrado do ponto de vista de um pajé amazônico. Durante 40 anos, o xamã Karamakate (papel divivido entre os atores Nilbio Torres e Antonio Bolivar) convive com dois cientistas (um da Europa, outro dos EUA) aprendendo as contradições do povo branco. De um lado vem o etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg (Jan Bijvoet ) e, do outro, o biólogo americano Richard Evan Schultes (Brionne Davis). Em meio ao olhar cartesiano de ambos, Karamakate trafega por uma fronteira entre realidade e delírio, na proteção de uma planta imaginária que faz sonhar. Nesse tráfego, ele e espectador aprendem, juntos, a estética da selva.

Rodrigo Fonseca em Cannes

Room

Baseado no romance homónimo de Emma Donoghue, «Room» é um dos retratos mais convincentes do poder maternal. Uma história arrebatadora, que no papel pode parecer uma ideia pouco atraente mas que depois nos surpreende. Na verdade, não se parece com nada que já tenhamos visto. É esse efeito de desconforto territorial que lhe aufere um valor humano profundo, quase existencialista. Sentimo-nos tão chocados como tocados, tão maravilhados como abençoados. Aquela criança, obrigada a inventar um mundo e, depois a descobri-lo, consegue um milagre de cinema: voltarmos a imaginar a nossa infância. Será como um jogo de crianças? Talvez, mas talvez ainda mais como um conto de fadas à Lewis Carroll, com monstros de verdade. Jack, o menino, sente-se como Sansão. Trata-se de uma das personagens mais fascinantes que aqui se viu no Festival de Toronto, sublinhada por uma interpretação de um menino de sete anos sobredotado, de nome Jacob Tremblay. Vamo-nos lembrar tanto dele como ainda nos lembramos d’ «O Menino Selvagem», de Truffaut. Obviamente, também será impossível não ficarmos devastados com o tour de force de Brie Larsson, a atual revelação de Hollywood.
Em «Room» entramos na infância pelos portões do pesadelo real.

Rui Pedro Tendinha em Toronto

O Meu Nome É Alice

Por um lado, a possibilidade (quase a certeza...) de que «O Meu Nome É Alice» vai dar um Oscar de melhor actriz a Julianne Moore é qualquer coisa que se colou ao filme como uma espécie de cartão de visita; por outro lado, seria uma pena que tal imagem reduzisse o trabalho da dupla de realizadores, Richard Glatzer/Wash Westmoreland, a um simples “veículo” para a sua admirável actriz principal.

Sublinhemos, por isso, um factor decisivo. Aliás, formulemos a pergunta mais básica de que o filme terá partido. A saber: como colocar em cena a deriva — física e emocional, familiar e social — de uma mulher de 50 anos a quem são detectados sintomas prematuros da doença de Alzheimer?

A pergunta justifica-se tanto mais quanto sabemos que há modelos dramáticos com enorme poder social, quase invariavelmente filiados em retóricas televisivas, que tendem a reduzir tais situações a um determinismo fácil, gratuito do ponto de vista humano, moralista nas suas sugestões “filosóficas”.

Dito de outro modo: «O Meu Nome É Alice» não é um filme em que a personagem central — a Alice interpretada por Julianne Moore — surja tratada como “símbolo” compulsivo de uma situação de sofrimento. Não se trata de suscitar uma piedade mais ou menos complacente e paternalista, antes de colocar em cena um ser humano que vive uma terrível perda de coordenadas da sua própria identidade — o que, afinal, transforma esse ser numa entidade irredutível, impossível de encenar a partir de qualquer padrão mais ou menos universal e unívoco.

Há ainda outra maneira de dizer isto: é mesmo verdade que, nos mais diversos contextos cinematográficos, se tem vindo a manifestar uma preocupação muito real no sentido de (re)valorizar as personagens femininas, de qualquer idade, libertando-as da colagem grosseira a modelos de raiz masculina, para não dizer machista.

Este processo de celebração de genuínas e complexas personagens femininas pode ser visto também como uma (re)valorização do conceito de personagem, tout court. Em vez de um objecto sustentado por estereótipos mais ou menos esquemáticos, com ou sem os célebres “efeitos especiais”, deparamos com seres (muito) vivos como Alice, capazes de mobilizar o nosso olhar, os nossos pensamentos e emoções.


Daí que seja fundamental insistir num outro valor que, deste modo, reaparece com inusitada visibilidade: o actor, a actriz. Lembremos, por isso, que a excelência de Julianne Moore é inseparável das impecáveis presenças de Kristen Stewart e Kate Bosworth (como filhas de Alice) ou Alec Baldwin (o marido). É através de todos eles que nos sentimos envolvidos com a tragédia íntima de Alice.

Still Alice R.: Richard Glatzer e Wash Westmoreland Int.: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth, Hunter Parrish. 101 min. 2014, EUA

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 26

Whiplash - Nos Limites

Vigoroso e magnetizante, «Whiplash – Nos Limites» é uma bela surpresa emoldurada por magnífica música. Andrew (Miles Teller) é um jovem que está numa das melhores escolas de música do mundo para aprimorar as suas aptidões para tocar bateria. Solitário e algo arrogante e pretensioso, a sua única companhia são as suas baquetas. Entretanto, cruza-se com Fletcher (J.K. Simmons), um professor obstinado com a busca da perfeição – recorrendo para isso a métodos muito próprios –, que encontra algum potencial em Andrew. Mas será o jovem capaz de aguentar tamanha pressão?

A narrativa da obra é fluida, não dando espaço para que o espectador se aborreça – muito pelo contrário, já que o interesse é constante e crescente. A realização de Damien Chazelle é sensível e focada nos detalhes, enaltecendo a virtuosidade dos actores, o que eleva verdadeiramente a qualidade do filme. O ainda jovem Teller dá aqui provas de ser – tal como a sua personagem – um diamante em bruto, com ainda muito para limar. A sua resiliência e entrega à personagem são admiráveis, dignas de nota. Mas as atenções viram-se para o veterano J.K. Simmons, brilhante na sua interpretação, fazendo com que não consigamos tirar os olhos do actor, tal é a força dramática e expressiva que materializa na sua personagem. A química entre os dois actores acaba por ser o grande trunfo para o desenvolvimento profícuo da obra. A excelente qualidade musical é a cereja no topo do bolo, munindo a narrativa de momentos acirrantes.
«Whiplash – Nos Limites» questiona até onde somos capazes de ir para alcançar a perfeição, bem como o melhor de nós mesmos. Mas será que há limites nesta demanda? A obra mostra ainda as amarguras e consequências da competição feroz, tão habitual quando se trata do universo referente aos melhores dos melhores. Não há espaço para moralismos ou julgamentos, retratando-se de forma imparcial os dois lados de uma mesma história, feita literalmente de sangue, suor e lágrima (o leitor entenderá o singular quando vir o filme). Damien Chazelle conseguiu transformar um tema nem sempre fácil de abordar em Cinema, o jazz, numa espécie de thriller, com um ritmo alucinante, fazendo com que «Whiplash – Nos Limites» se traduza numa obra pejada de emoção, explosão dramática e muitas batidas inesquecíveis.

Realização: Damien Chazelle
Actores: Miles Teller, J.K. Simmons, Melissa Benoist

Estrelas: 5

Assinar este feed RSS