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Actualizado às 10:13 PM, Aug 20, 2019

Cleópatra

Quando Elisabeth Taylor vestiu a pele de Cleópatra no épico de 1963 de Joseph L Mankiewicz estava longe de ser a primeira atriz a levar ao grande ecrã a figura, entretanto mitificada, da rainha egípcia. 19 anos antes americana, de origem francesa, Claudette Colbert tinha envergado semelhante desafio, sendo a primeira a fazê-lo na era do cinema sonoro (o que subentende que, antes, outras Cleópatras tinha havido).Antes do mais convém deixar claro de que Cleópatra se fala quando se fala de Cleópatra. Trata-se, na verdade, de Cleópatra VII, a penúltima rainha do Egito ptolomaico – sucedeu-lhe, por nove dias, o curtíssimo reinado do filho Cesarion, fruto de um relacionamento com Júlio César, que reinou como Ptolomeu XV. A ligação a César, um outro relacionamento com o também romano Marco António (que tomou o partido do velho general assassinado em 44 a.C.) e a morte, conta-se, pela picada de uma áspide – ideia que alguns historiadores recentes têm contestado – ajudaram a criar uma narrativa que a cultura popular, sobretudo o cinema, depois mitificou.Foi Meliès quem levou pela primeira vez a memória da antiga rainha a um filme sobre o seu túmulo, em 1899. E após dois biopics nos tempos do mudo, um em 1912 por Charles L Gaskill (com Helen Gardner no papel principal) e outro, cinco anos depois, por J. Gordon Edwards (com Theda Bara), o som chegou a Cleópatra com uma nova adaptação, nos estúdios Universal, com Cecil B DeMille na cadeira do realizador.Trata-se de uma abordagem dominada pela mitificação das figuras, cheia de incorreções históricas – tanto na narrativa como numa direção artística que cria um Antigo Egito que só na Hollywood dos anos 30 faria sentido – mas que tem na força da expressão da protagonista o seu maior tesouro (Claudette Colbert ganharia um Oscar no ano seguinte como Melhor Atriz em ‘Uma Noite Aconteceu’, de Frank Capra). Longe de ser o melhor ‘biopic’ da rainha egípcia e também distante dos melhores filmes de época de então, não deixa de ser um episódio digno de se assinalar na história das representações de uma figura que não teria talvez a mesma dimensão mítica sem o estatuto que o cinema lhe deu.

tres estrelas

Título Nacional Cleópatra Título Original Cleopatra Realizador Cecil B DeMille Actores Claudette Colbert, Warren William, Henry Wicoxon Origem Estados Unidos Duração 100’ Ano 1934

(Publicado originalmente na Metropolis nº27)

Ozu x3

Em «A Flor do Equinócio» (1958), Yasujiro Ozu filma a odisseia de uma jovem que enfrenta a tradicional pressão da família para se casar, afirmando o direito a escolher o seu noivo. «Bom-Dia» (1959) centra-se em dois irmãos que, ao descobrirem que as crianças da casa do lado possuem uma novidade que a eles lhes falta — um televisor —, decidem fazer greve às refeições até terem direito ao mesmo privilégio... Enfim, «O Fim do Outono» (1960), fiel ao simbolismo do seu título, segue as atribulações de um velho senhor que, depois da morte da mulher, tenta garantir um bom casamento para a sua filha.

Escusado será que estas brevíssimas sinopses nada nos dizem sobre a delicadeza humana, e também a complexidade formal, do cinema de Ozu. Acima de tudo, não reflectem o rigor de uma mise en scène sempre empenhada em expor os equilíbrios e desequilíbrios dos corpos no interior de um espaço altamente codificado.

Em todo o caso, através delas podemos detectar os sintomas de algo essencial, não apenas nestes três títulos da fase final de Ozu, mas no desenvolvimento de toda a sua obra (que, é bom lembrar, começa ainda no período mudo). A saber: o autor de títulos como «Eu Nasci, Mas...» (1932) e «Viagem a Tóquio» (1953) foi sempre um metódico observador das transformações da sociedade japonesa, vistas a partir da dinâmica interna das famílias.

Os três títulos agora editados em DVD — depois de terem integrado uma bela temporada de reposições de vários filmes de Ozu em novas cópias digitais — nascem de um paradoxal sentimento de curiosidade e desencanto. Estamos, afinal, perante histórias do Japão do pós-guerra. E mesmo se as agruras dos combates apenas perpassam, muito esporadicamente, no quotidiano, o certo é que se sente que todas as relações geracionais estão a ser objecto de mudanças mais ou menos atribuladas, para mais num mundo que começou a integrar os instrumentos de uma nova idade tecnológica (e escusado será sublinhar que a televisão, em «Bom-Dia», é o sinal mais evidente de tal processo — e tanto mais quanto Ozu a encara a partir de um contagiante sentimento de comédia).

Ozu não escolhe umas personagens contra outras. Este é, aliás, um cinema de profundo respeito pela complexidade afectiva de cada ser humano, seus gestos e pensamentos. Pelos três filmes perpassa antes o contido desencanto de alguém que observa a decomposição dos laços mais tradicionais no interior das famílias, ao mesmo tempo que não está seguro sobre a consistência de todo um novo sistema de relações (familiares, profissionais, sociais).

São, enfim, filmes que definem e integram um fascinante testamento. Depois, Ozu apenas assinaria mais duas realizações: «O Fim do Verão» (1961) e «O Gosto do Saké» (1962), este também já disponível em DVD. Veio a falecer a 12 de Dezembro de 1962, precisamente no dia em que completou 60 anos.

TÍTULOS ORIGINAIS

Higanbana + Ohayo + Akibiyori

REALIZAÇÃO
Yasujiro Ozu

ACTORES
Shin Saburi, Keiji Sada, Setsuko Hara

118 min. + 94 min. + 128 min.

1958 + 1959 + 1960 Japão

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 26

Roberto – Ingrid de Roberto Rossellini

As consequências de uma carta

Esta história começa, em 1948, com uma carta enviada a Roberto Rossellini por Ingrid Bergman, uma atriz já com dez anos de sucesso em Hollywood e que, com «Casablanca», tinha já conquistado um lugar na história do cinema. Dizia que tinha visto os filmes, que hoje agrupamos como constituindo a Trilogia da Guerra, lembrava que sabia falar inglês, não se esquecera do alemão, não brilhava no francês e em italiano não ia além de “ti amo”.

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