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Actualizado às 11:37 PM, Nov 4, 2019

The Righteous Gemstones: uma série absolutamente “diabólica”

Uma das comédias mais esperadas da HBO, «The Righteous Gemstones», chega finalmente ao catálogo na madrugada de segunda-feira. A METROPOLIS analisa o primeiro episódio.

Depois de «Eastbound & Down» e «Vice Principals», Danny McBride volta a aventurar-se como criador de uma série de TV, novamente com o selo da HBO, desta feita com «The Righteous Gemstones». A série retrata uma família peculiar, que tem feito carreira como televangelista: além de o patriarca ser um proeminente pastor evangelista, os Gemstones têm bastante destaque na televisão como figuras de revelo da sua religião. Juntar esta premissa ao histórico cómico de McBride tem tudo para ser uma receita de sucesso, que se torna ainda mais promissora ao contar no elenco, além do criador, com John Goodman («Roseanne»), Edi Patterson («Vice Principals») e Adam DeVine («Workaholics» e «Uma Família Muito Moderna»).

A linguagem e a construção do argumento são corrosivas e, apoiadas nos estereótipos e no preconceito social de algumas religiões, desmistificam a falsa noção de superioridade em que os Gemstones vivem. E à qual a sua comunidade religiosa cegamente se associa. Ao invés de contrariar essa estereotipazação, McBride alimenta-a. Tudo é apoiado por ideias preconcebidas e, ironicamente, tudo tem o potencial de correr mal. Da fama desmesurada à fraqueza da carne humana, sempre assente em preconceitos de género e poder, os Gemstones são uma comédia em si próprios. Também a realidade em que estão inseridos, onde a riqueza da família deriva diretamente da religião evangélica que professam, resulta numa crítica mordaz a essa mesma realidade fora da ficção.

The Righteous Gemstones4

Eli Gemstone (Goodman), o patriarca da família – que construiu o império com a mulher, entretanto falecida –, mantém laços bastante próximos com os três filhos, ainda que Judy (Patterson) assuma um papel muito secundário por ser mulher. Esta relação excessivamente próxima e manipulada, cujo impacto também é visível na comunidade religiosa, é o principal motor da crítica que McBride quer construir. Apesar de ninguém se enquadrar totalmente na visão de Eli, os filhos anulam-se para garantir o acesso à riqueza estabelecida dos Gemstones. E há mesmo uma competição entre pastores de outras localidades, com as tentativas de “franchise” a gerarem desconforto noutras congregações, devido ao mediatismo da família e à consequente disputa pelo dinheiro da comunidade...

As famílias televangelistas são comuns nos Estados Unidos, e também noutros países como o Brasil, pelo que o universo construído por Danny McBride é tudo menos inocente. Na sua base está a condição humana, independente da profissão e da religião dos intervenientes, que contrasta com a visão que a população tem dos Gemstones. Não há “santos” nem boas intenções em jogo, pelo contrário, e é essa caricaturização que sustenta a comédia de «The Righteous Gemstones», uma história bem construída, mas que certamente não escapará à polémica...

  • Publicado em TV

Extremamente Alto, Incrivelmente Perto

O realizador britânico Stephen Daldry (O Leitor, As Horas) aborda o vazio na memória provocado pela perda abrupta de um ente querido. Neste caso a ferida aberta do 11 de Setembro é revista através de uma criança (especial) que vê o mundo de uma perspectiva única. Oskar (Thomas Horn) perdeu o pai nos atentados do World Trade Center (Hanks interpreta o pai de Oskar, e está igual a si mesmo). A manhã do pior dia da sua vida atormenta a existência de Oskar a cada instante, a forte relação com o pai impede-o de viver sem respostas para acções que não fazem sentido. O protagonista é uma criança com necessidades especiais que a parte das “fobias” do mundo real também possui dons de observação e inteligência que o diferem de alguém da sua idade. A descoberta de uma “pista”, um ano após a morte do pai, leva-o a palmilhar Nova Iorque à procura de um sinal. Uma expedição que o torna mais próximo do falecido pai e cada vez mais distante da mãe (Sandra Bullock) que lida igualmente com a tragédia, e o distanciamento do filho. Uma interpretação pequena mas bem acentuada por parte de Bullock. A segunda metade do filme é marcada pela masterclass de Max Von Sydow, no desempenho paradoxal do misterioso inquilino da sua avó que é um homem mudo que representa alguém com quem Oskar pode expressar livremente os seus sentimentos. Uma nota também para o pequeno mas não menos belo papel de Viola Davis.

O destaque interpretativo vai para Thomas Horn, uma criança sem experiência de representação e que teve entre mãos um papel complicado. Horn demonstrou coragem, dedicação e tenacidade, espera-se que continue a explorar a arte da representação. A realização de Stephen Daldry não se perde no enigma narrativo preferindo desenvolver a vertente profundamente humana da tragédia através de várias cenas a solo onde a observação da dor profunda dilui-se na poesia da imagem. Mais uma vez, após Billy Elliot (2011), Daldry revela o seu dom para trabalhar com jovens actores.

A edição em DVD da Warner/ZON Lusomundo contém um extra - Finding Oskar (7´), revela-nos Thomas Horn, e como ele se tornou actor após ter sido descoberto num concurso televisivo pela produção do filme. Segundo o elenco, Horn é uma fonte de informação e estimulação. O realizador recorda, “Horn sabia o que estava a fazer e tinha uma metodologia”, ele não era um actor mas tinha os instintos correctos, não ficou intimidado nem teve dificuldade em encontrar o “momento”.

tres estrelas

Título Nacional Extremamente Alto, Incrivelmente Perto Título Original Extremely Loud & Incredibly Close Realizador Stephen Daldry Actores Thomas Horn, Tom Hanks, Sandra Bullock Origem Estados Unidos Duração 129’ Ano 2016

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº0.5)

 

Tom Hiddleston e Samuel L. Jackson em «Kong: Skull Island»

«Kong: Skull Island» tem estreia mundial marcada para Março de 2017. A Warner revelou este sábado (23) na Comic-Con International em San Diego o primeiro trailer de novo filme de "King-Kong", intitulado "Kong: Skull Island".

Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John Goodman e John C. Reilly estão no elenco.

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10 Cloverfield Lane

Quase uma década se passou desde que o monstro de «Nome de Código: Cloverfield» assombrou o planisfério cinéfilo, com uma facturação global de US$ 170 milhões alimentado pela originalidade de sua narrativa semidocumental, com pele de reality show. O seu êxito ajudou a projetar J. J. Abrams também como produtor, consagrando seu faro para a oportunidade em um momento histórico no qual a estética do real parecia inovadora como um acréscimo para a ficção. Uma leva de longas de terror veio nessa toada, em especial «[Rec]» (2007), da Espanha. Mas o dispositivo que Abrams confiou à direção de Matt Reeves deu sinal de desgaste, cansando-se pela banalização. Atento à mudança, o realizador de «Star Wars: O Despertar da Força» (2015) percebeu que deveria arriscar uma outra penugem se quisesse liberar o pássaro dos lucros da gaiola na qual enjaulou aquele experimento. Em vez de fazer um Big Brother das trevas, seria mais impactante realizar um ensaio sobre paranoia. Eis: «10 Cloverfield Lane».

Sob a direção de Dan Trachtenberg, realizador do curta-metragem «Portal: No Espace», de 2011, a longa-metragem é uma aula de claustrofobia física e moral, expressa a partir do confinamento de personagens acossados pelos males da alma humana. É tarefa de Mary Elizabeth Winstead (da série «The Returned») dar vida (e algo de novo) ao arquétipo da heroína passiva típica do género horror. Ela é Michelle, jovem abalada pelo fim de um namoro que, após um acidente de carro, encontra-se presa em um bunker com dois sujeitos que oscilam entre a fofura extrema e a loucura mais letal: Emmett (John Gallagher Jr.) e Howard, vivido por um John Goodman no ápice da potência dramática.

Diz a dupla que Michelle não pode sair pois, lá fora, uma hecatombe química pode levar a Humanidade à ruína. A tragédia está ligada à existência do monstro de « Nome de Código: Cloverfield». Mas pouco importa se é verdade ou não, para ela e para nós. O interesse maior é o clima de desconfiança e traição que corre na tela num fluxo crescente de temperatura e pressão. É uma lição de suspense, amparada pelo talento de um elenco em plena afinação. A câmara, hitchcockiana, sugere, mas não escancara. Tudo se dá na base da sugestão, da discrição, numa potência visual expressa a partir de uma luz bruxuleada. Abrams acertou de novo. 

cinco estrelas

Título Nacional 10 Cloverfield Lane Título Original 10 Cloverfield Lane Realizador Dan Trachtenberg Actores John Goodman, Mary Elizabeth Winstead, John Gallagher Jr. Origem Estados Unidos Duração 103’ Ano 2016 

(Publicado originalmente na Metropolis nº37)

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