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Actualizado às 10:34 PM, Sep 15, 2019

«Vingadores: Endgame» - Crítica

Ser ou não ser herói, na tragédia arrebatadora da Marvel

É impossível encarar a sequência em que Tony Stark (Robert Downey Jr., em estado de graça) desabafa sua sensação de fracasso para a máscara desfeita do Homem de Ferro sem pensar em Hamlet e sua conversa com o crânio de Yorick: é ali, no início, carregado de energias shakespearianas, que «Vingadores: Endgame» deixa evidente a sua dimensão existencialista. Há algo de corrupto no reino da Marvel, representado na figura de um titã destruidor de mundos que faz do extermínio uma forma de encarar a paz. Thanos é um Macbeth, que sujou suas mãos de pó de pessoas atomizadas, movido pela sua milady, a Morte, e, agora, coroado o soberano do vazio, reflete sobre o horror de seus atos procurando o seu equilíbrio interno. A longa-metragem anterior da franquia, o magnífico “Guerra infinita” (2018), era dele... era o seu «Trono de Sangue» (1957), bem parecido com o de Akira Kurosawa. Mas neste novo e (por enquanto) derradeiro tomo de uma saga que redefiniu a história do entretenimento nos grandes ecrãs, de 2008 para cá, percebe-se, já nos primeiros minutos, que o buraco é mais fundo, é o da náusea diante do ser ou não ser herói num mundo que perdeu o leme. Por isso, só um vigilante demasiadamente humano como Stark – um ególatra alcoólatra, incapaz de relativizar as suas noções de Bem e o Mal – pode ser o Príncipe da Dinamarca nesta tragédia anunciada sobre a reconquista da esperança. Stark é o cordeiro do deus Stan Lee (1922-2018): a imolação de sua arrogância é o dízimo a ser pago em prol da crença do altruísmo como argamassa de uma civilização de tolerância. Thor, numa interpretação memorável de Chris Hemsworth, será o bobo da corte deste espetáculo de som e de fúria, fazendo o público rir para assinalar a medida do desespero de um gladiador sem arena. Thanos destruiu o Coliseu com a sua estratégia niilista: não existe mais nenhuma batalha a ser lutada, no início deste inventário de cicatrizes dirigido na raia da excelência épica pelos irmãos Joe e Anthony Russo, porque não existem mais guerreiros. O Darth Vader dos comics apagou um punhado significativo de almas da Terra... e de todo o Universo... a fim de higienizar o Cosmos das pragas afetivas, das prepotências. Cabe ao Hefeso dos quadrinhos, Stark, o forjador, dar um sentido à falta de propósito ético que se instaurou em sua realidade com o desmantelo das diferenças e das imperfeições. Cabe a Stark forjar o caos. Daí a matéria do tocante «Avengers: Endgame» ser o Tempo. É na confluência do vetor intangível... a perenidade do existir... que o irreversível se torna reversível. O filme dos Russo não é uma trama de vingança. É a odisseia temporal de pessoas que perderam o senso de relevância para mexer numa pintura com as tintas mórbidas da plenitude e da quietude, enchendo o quadro de humanidades. Stark é o retocador. Cabe ao Capitão América, num desempenho surpreendente de Chris Evans, ser o seu artista final: preenchendo lacunas e completando pontilhados. São amigos para a vida. E é a amizade que serve de leme a uma narrativa que fecha um ciclo histórico de sucesso na Estética do audiovisual, aberto com «Homem de Ferro» (2008), de Jon Favreau, no qual Downey Jr. fez a sua carreira reencontrar os trilhos. Ao assumir como personagem central (confiado a um ator de múltiplas virtudes), a figura de um nobre assombrado pelo espectro da perda, a Marvel deixa claro a sua reta de maturidade em busca de uma trama menos calcada em onomatopeias (Soc! Pow! Pum!) e mais interessadas em verticalizar conflitos psicológicos. O seu reinado no cinema começou, silencioso, há 21 anos, quando Wesley Snipes juntou tostões para filmar «Blade – O Caçador de Vampiros», de 1998. Ali pavimentou-se o caminho para a fauna de mascarados de Stan Lee ganhar corpo e alma no cinema. Mas, desde o seminal «Logan» (2017), a Casa das Ideias (apelido da Marvel) abriu a deixa para discutir temas mais cortantes e urgentes do que o maniqueísmo. «Pantera Negra», com sua veia racial festiva, foi o ápice da transformação do estúdio na trilha do amadurecimento, seguido pelo debate acerca do empoderamento de «Capitão Marvel», com uma heroína que regressa aqui ainda mais gloriosa. Agora, com o novo “Vingadores”, temos um réquiem – sem cenas ao fim dos créditos – para um projeto de epicização fantástica das relações afetivas. Thanos, na inteligente composição de Josh Brolin, deixa de ser o Prometeu acorrentado da longa de 2018 e é repaginado como um cruel brutalista. A sua maldade assegura a verve espetacular de que o filme precisa para agradar os fãs e deixar o Homem de Ferro nos guiar pelos erros da condição humana. Filme de uma beleza singular.

cinco estrelas

No Coração do Mar

Ron Howard dirige Chris Hemsworth na história verídica por detrás da odisseia épica que originou o clássico literário Moby Dick, de Herman Melville. O filme começa justamente com Herman Melville (Ben Whishaw) a procurar inspiração de um dos sobreviventes (Brendan Gleeson) de uma fatídica viagem da tripulação do Essex versus uma baleia gigante que provocou o caos e acções impensáveis por parte da tripulação. A narrativa desenrola-se a dois tempos, a noite onde se conta a história e se exorcizam demónios e a viagem propriamente dita e a rivalidade entre dois homens do baleeiro, o imediato Owen Chase (Hemsworth) e o capitão Pollard (Benjamin Walker). Essex é uma embarcação que se move pela força da ambição e a arrogância. Chris Hemsworth é um digno protagonista, o restante elenco não lhe fica atrás numa luta de egos sem surpresas. O filme tem mais ritmo quando o espectáculo dos efeitos especiais preenche o ecrã. Ron Howard contextualiza muitíssimo bem a atmosfera em terra e no mar num excelente trabalho da sua produção a nível de cenários, figurinos e utilização sem dó nem piedade de todo o abecedário marítimo. A história de rivalidade é ofuscada pela história de sobrevivência, no formato blu-ray é o ecrã que se agiganta perante o espectador e as duas horas de duração passam a correr ao contrário da experiência em sala que engole e satura a audiência. Uma aventura didáctica, dramática e com entretenimento q.b. na luta entre o homem e a sua natureza.

Título Nacional No Coração do Mar Título Original In the Heart of the Sea Realizador Ron Howard Actores Chris Hemsworth, Cillian Murphy, Brendan Gleeson Origem Estados Unidos/Grã-Bretanha Duração 122’ Ano 2016

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº39)

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