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Actualizado às 9:45 PM, Sep 22, 2019

Era Uma Vez em... Hollywood - ciclo Tarantino

O 9º filme de Quentin Tarantino é, provavelmente, o mais pessoal que realizou. O cineasta presta uma homenagem ao cinema e à televisão, seguindo uma narrativa não linear, imbuída de melancolia, humor negro e com instantes de violência cuidadosamente doseados.

As duas personagens ficcionadas que permitem a aproximação a essa vivência cultural são Rick Dalton, uma estrela de ‘westerns’ televisivos que perdeu importância e procura entrar no meio do cinema, sempre acompanhado por Cliff Booth, o seu duplo. Brad Pitt e Leonardo DiCaprio, que Tarantino dirigiu, individualmente, em «Sacanas Sem Lei» e «Django Libertado», respetivamente, surgem pela primeira juntos, triunfantes, num dueto extravagante, carregado de cumplicidade, e que cativará a atenção do espectador.

As referências convocam as memórias afetivas e vivências do próprio cineasta em Hollywood, celebrando um período muito concreto da cultura pop e da cena cinéfila no final da década de 1960: o filme está recheado de cenas pastiche de filmes e televisão e citações de outros filmes de Tarantino, escutamos spots radiofónicos e músicas marcantes da época, vemos anúncios desse ano em grandes ‘billboards’ nas rua e somos levados a vários ‘boulevards’ ou locais icónicos de Los Angeles que aparecem retocados com mestria digital. É uma reconstituição retro muito colorida, garrida, viva e fetichista.

O espírito do tempo está bem captado e permite enquadrar o ano de 1969, fazendo uma incursão no movimento hippie e estabelecendo a ligação com a seita de Charles Manson que matou a atriz Sharon Tate (Margot Robbie) quando estava casada com o realizador Roman Polanski (Rafal Zawierucha). É aqui que Tarantino pretende levar-nos, cruzando a ficção com a realidade, numa fantasia histórica estimulante que reinterpreta determinados acontecimentos, como sucedeu no ‘western’ «Django Libertado» e no filme de guerra «Sacanas Sem Lei».

Podemos lamentar que a talentosa Margot Robbie seja apenas uma figura sexy, decorativa, alegre e que só encontre espaço para sobressair numa única cena do filme. Mas essa critica não encaixa num filme com um contexto e um pretexto que são amarrados de forma inteligente e controversa no epílogo, propondo uma reconstituição muito autoral desse crime que marcou o final de uma era radiosa na história do cinema em Hollywood.

Tarantino evoca esse acontecimento através de uma narrativa que nem sempre é linear, que segue por muitos atalhos imprevistos, que assume várias tramas secundárias interessantes mas que nem sempre são claras para o espectador. A experiência será mais recompensadora se soubermos o que sucedeu em casa do casal Sharon Tate e Roman Polanski a 9 de agosto de 1969. Quem não estiver familiarizado com o assunto deve procurar mais informação para entender melhor o episódio central de «Era Uma Vez em... Hollywood».

Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Damon Herriman
2019 | 161 min

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Sacanas sem Lei - ciclo Tarantino

Evocar tensão e tirar o tapete ao espetador. Em «Inglorious Basterds», Tarantino iniciou essa sua tendência, quase como um tique. Fá-lo de forma artesanal, quase sempre num contínuo prazer de auto-evocação. Não estará no top 3 dos seus melhores filmes, mas é obra-prima do cinema de guerra dos últimos anos.

«Sacanas sem Lei» é o primeiro de Tarantino a brincar com o revisionismo histórico. A brincar ou a fabricar de forma estruturada e com reivindicação de direitos de autor. Quem vir agora «Era uma Vez em...Hollywood» vai perceber que talvez se trate de obsessão. E é ainda o primeiro filme de Tarantino a reforçar o seu amor por uma escrita em atos ou o cineasta não estivesse em constante ensaio conceptual com a respiração teatral.

A história passa-se na Segunda Guerra Mundial e apresenta-nos um grupo de soldados dos Aliados que se junta com um plano para matar o líder dos nazis, Hitler. Tudo menos uma história verdadeira. Ou seja, a ficção ao serviço do delírio da justiça cinéfila.

Tarantino, mais do que um filme, ergue uma antologia de todo o seu estilo. Mais do que nunca, aperfeiçoa o limite da explosão emocional de cada cena e encena um discurso pós-moderno sobre a linguagem, mesmo quando o anacronismo do Inglês é a pedra de toque.

Para lá de tudo isto, «Sacanas sem Lei» é o filme de guerra a ir ao convento da cultura pop. E é sempre feudal a quem ainda acredita na arte do espanto.

Brad Pitt, Christoph Waltz, Diane Kruger, Eli Roth, Mélanie Laurent
2009 | 153 min

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«Ad Astra» com Brad Pitt - antevisão

Os filmes no Espaço são cada vez mais recorrentes no Cinema. Nos últimos anos, filmes como «Gravidade» (2013), «Interstellar» (2014) e «Passageiros» (2016) têm oferecido propostas muito diferentes entre si mas com o mesmo cenário. «Ad Astra» também se passa neste palco inesperado e misterioso, sendo um thriller de ficção científica que tem chamado a atenção. O realizador da obra é James Gray, que se notabilizou pela sua viagem na selva em «A Cidade Perdida de Z», uma obra bem recebida pela crítica, que o leva a ter agora o seu projeto com orçamento mais elevado, permitindo-o chegar também a outros públicos. Este é também o primeiro lançamento da 20th Century Fox desde que foi adquirida pela Disney.

O cineasta revelou que as suas influências passaram por obras como «2001: Odisseia no Espaço» (1968) e «Apocalypse Now» (1979). “É a minha tentativa de abordar - espero que de uma nova forma - uma história entre pai e filho, que é tão central na cultura ocidental”, conta Gray. A narrativa centra-se nisso mesmo, com um personagem a embarcar na mesma missão espacial que o seu pai encarou 20 anos antes e que consiste em procurar vida alienígena em Neptuno.

Brad Pitt interpreta o engenheiro que se arrisca nesta missão para encontrar o seu pai, interpretado por Tommy Lee Jones. Pitt tem estado mais afastado do grande ecrã enquanto ator, estando mais presente enquanto produtor, mas volta agora a mostrar o seu já incontestável talento para encabeçar uma história de cariz intimista e complexo. A completar o chamativo elenco figuram nomes como Donald Sutherland e Ruth Negga.

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Netflix - Escolhas Metropolis (13 de Junho)

Entre sardinhas e festas pela noite fora próprias da época, há também lugar para muita emoção e surpresas na Netflix Portugal. Nas sugestões desta semana da METROPOLIS, apresentamos-lhe o regresso de uma série muito aguardada, um filme de culto e outras produções que prometem horas de excelente ficção.


Novidades
«Orange is the New Black»
Série-sensação dos últimos anos, «Orange is the New Black», uma produção original da Netflix, chega à sua 5.ª temporada e os novos 13 episódios estão todos disponíveis no catálogo da Netflix Portugal.

A série gira em torno de Piper Chapman (Taylor Schilling), condenada a cumprir 15 meses numa prisão feminina federal por transportar uma mala de dinheiro proveniente de tráfico de drogas. Na nova temporada, o enfoque é o motim das prisioneiras, num misto de violência e emoções à flor da pele. «Orange is the New Black» já venceu quatro Emmys e foi nomeada para seis Globos de Ouro.

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«Máquina de Guerra»
Num filme original Netflix, «Máquina de Guerra» é uma comédia negra realizada por David Michôd («Reino Animal», 2010) e com Brad Pitt no papel principal. O ator norte-americano interpreta um general orgulhoso que é incumbido de ganhar uma guerra impopular, tendo como principal inimigo a sua própria arrogância. Uma obra que explora as políticas de um conflito bélico, «Máquina de Guerra» tem também no elenco Ben Kingsley e Tilda Swinton.

Homeland


Maratona da Semana

«Segurança Nacional»
Uma série em jeito de thriller político, «Segurança Nacional» foca-se na história de Carrie Mathison (Claire Danes), uma analista da CIA que precisa de lidar com a sua bipolaridade enquanto embarca na guerra contra o terrorismo. A produção é baseada na série israelita «Hatufim», criada por Gideon Raff. O enredo inicial da série passava por Carrie acreditar que Nicholas Brody (Damien Lewis), um sargento prisioneiro de guerra, passara para o lado inimigo e se tornara num risco para a segurança nacional.
«Segurança Nacional» venceu seis Emmys e cinco Globos de Ouro, incluindo Melhor Série Dramática, Melhor Atriz e Melhor Ator. Pode ver ou rever as cinco primeiras temporadas na Netflix Portugal.

Agora na Netflix
«Jessica Jones»
Jessica Jones foi, em tempos, uma super-heroína, mas que decidiu mudar de vida e tornar-se numa detetive privada. Todavia, o seu passado sombrio e traumático não a larga e Jessica precisará de usar os seus superpoderes para encontrar o seu perseguidor antes que ele faça mais estragos. A série, muito elogiada por crítica e fãs, foi criada por Melissa Rosenberg e é protagonizada por Krysten Ritter. «Jessica Jones» faz parte do Universo Cinematográfico Marvel e segue-se a «Daredevil», numa série de produções de super-heróis que culminará no crossover «Os Defensores».

2001 A Space Odyssey

«2001: Odisseia no Espaço» (1968)
É um dos clássicos da História do Cinema, um filme de culto incontornável. Falamos de «2001: Odisseia no Espaço», escrito e realizado por Stanley Kubrick, numa obra épica que acompanha a jornada de dois astronautas que têm de lidar com o avançado sistema do inteligente computador da sua nave enquanto investigam o aparecimento de estranhos monólitos por todo o Espaço. O filme foi nomeado para quatro Óscares, tendo vencido na categoria de Melhores Efeitos Visuais.

tom cruise

Figura da Semana: Tom Cruise
Um mestre nas cenas de ação, Tom Cruise não se poupa a esforços para surpreender o público, recorrendo a duplos só mesmo quando é imperativo. O ator norte-americano está atualmente nas salas portuguesas com o reboot «A Múmia», tendo uma carreira diversificada e que já conta com três nomeações para os Óscares: Melhor Ator Principal por «Nascido a 4 de Julho» (1989) e «Jerry Maguire» (1996), e Melhor Ator Secundário por «Magnolia» (1999).

«Tempestade Tropical» (2008)
Ben Stiller realiza e protagoniza uma comédia inusitada e provocadora, em que três grandes estrelas de Hollywood pensam que estão a fazer um filme de guerra quando, na verdade, muito mais se passa. O elenco é de luxo, com Robert Downey Jr., Jack Black e, claro, Tom Cruise, que tem uma participação pequena mas absolutamente inesquecível.

the firm

«A Firma» (1993)
Em mais um drama marcante da sua carreira, Tom Cruise interpreta um advogado recém-formado em Harvard que é contratado para uma grande empresa, sem desconfiar do lado obscuro da instituição. Gene Hackman, Holly Hunter e Ed Harris fazem também do elenco de «A Firma», uma obra de Sydney Pollack que foi nomeada para os Óscares de Melhor Atriz Secundária (Holly Hunter) e Melhor Banda-Sonora.

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Brad Pitt em «War Machine» da Netflix

«War Machine» baseia-se no livro “The Operators: The Wild and Terrifying Inside Story of America's War in Afghanistan”, lançado em 2012, da autoria do jornalista Michael Hastings. A obra revela os pormenores das viagens que Hastings partilhou com o General Stanley McChrystal e a sua equipa, em abril de 2010. Para interpretar o General foi escolhido um dos atores mais disputados de Hollywood, Brad Pitt, já nomeado três vezes para os Óscares nas categorias de interpretação, mas acabaria por ser enquanto produtor que venceria o galardão, graças ao visceral «12 Anos Escravo» (2013). Muito versátil, o ator já surpreendeu na comédia e no drama, pelo que a sua performance neste filme é especialmente apelativa. Pitt é também um dos produtores do filme.

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O australiano David Michôd assume a dupla função de argumentista e realizador de «War Machine», depois de ter impressionado com a sua primeira longa-metragem, «Reino Animal». O cineasta realizou depois outro filme, «The Rover - A Caçada» (2014), protagonizado por Guy Pearce e Robert Pattinson, além de episódios das séries «Uma Vida Nova» e «Flesh and Bone». Intensidade e alguma negritude dramática são alguns dos aspetos que marcam a realização de Michôd. Os direitos de «War Machine», cujas filmagens decorreram já em 2015 em Abu Dhabi e em Inglaterra, foram adquiridos pela Netflix pelo valor considerável de 60 milhões de dólares. Além do protagonista, o filme incorpora um elenco sólido. Falamos de Emory Cohen, Scott McNairy, Tilda Swinton e Ben Kingsley.

História: Uma sátira da intervenção norte-americana no Afeganistão com especial enfoque nas pessoas que geriam a operação militar.
Realizador: David Michôd («Reino Animal», 2010; «The Rover - A Caçada», 2014)
Elenco: Brad Pitt, Ben Kingsley, Tilda Swinton
Estreia na Netflix a 26 de maio de 2017

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A Queda de Wall Street

O filme de Adam McKay é baseado no trabalho de investigação de Michael Lewis, jornalista do New York Times e da Vanity Fair que analisou de forma compreensiva o colapso financeiro mundial de 2008. Adam McKay assinou uma obra para a posteridade com actores da linha da frente que acreditam piamente nos papéis que desempenham e no impacto que os mesmos têm na pedagogia e esclarecimento do público perante o imbróglio que foi a crise financeira mundial provocada por um esquema criminoso de bancos e investidores em prol do lucro sem dó nem piedade. O registo consegue ser minucioso a nível técnico sem repelir os espectadores com a panóplia de termos financeiros graças a uma narrativa que sabe evoluir em crescendo e relacionar o drama humano com os meandros da alta finança. A história é baseada em situações e personagens verídicas que são peças de um puzzle que forma um evento cinematográfico que, como nenhum outro, retrata a principal crise financeira mundial desde o crash de 1929. É um filme esclarecedor que nos deixa atónitos perante ganância de alguns, ganância que destruiu o sonho de milhões. Uma obra absolutamente imperdível.

cinco estrelas

Título Nacional A Queda de Wall Street Título Original The Big Short Realizador Adam McKay Actores Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling Origem Estados Unidos Duração 130’ Ano 2015

(Texto publicado originalmente na Metropolis nº43)

Zemeckis + Pitt + Cotillard

Subitamente, com assinatura de Robert Zemeckis, um grande retorno aos valores do melodrama de guerra — este texto foi publicado no Diário de Notícias (30 Novembro), com o título 'Melodrama de guerra renasce com Brad Pitt e Marion Cotillard'.

Será que neste nosso admirável mundo global até mesmo um filme como Casablanca, realizado por Michael Curtiz em 1942, já começou a ser desconhecido da maior parte dos espectadores? A pergunta não é banalmente nostálgica, mas visceralmente cultural. A saber: será que até mesmo a nobreza clássica de Hollywood está a ser esmagada por uma noção de cinema popular que se esgota em Harry Potter e seus companheiros mais ou menos monstruosos? Vem isto a propósito de alguém, Robert Zemeckis, que arrisca, precisamente, fazer um filme como Aliados [Allied], evocando e invocando a grande tradição do melodrama de guerra de que Casablanca continua a ser, apesar de tudo, o símbolo mais universal.

Para evitar confusões, Zemeckis situa mesmo a primeira parte do seu filme em... Casablanca! Humphrey Bogart e Ingrid Bergman não passam de uma memória inacessível, mas o seu simbolismo romântico surge revisitado por um novo par, Brad Pitt e Marion Cotillard, vivendo também uma aventura em que a frieza dos jogos de espionagem se combina com as intensidades do impulso amoroso.

Digamos, para simplificar, que se trata da história de um par assombrado. Max Vatan (Pitt) é um oficial canadiano que recebe a missão de assassinar o embaixador alemão em Casablanca, para tal contando com a colaboração de Marianne Beauséjour (Cotillard), das fileiras da Resistência francesa. Missão cumprida, apaixonam-se e vão viver para Londres até que, um dia, já casados e com uma filha, ainda sem se vislumbrar o fim da guerra, Max é informado pelos serviços britânicos de que há suspeitas de Marianne ser uma espia alemã...

No seu esquematismo, este resumo limita-se a corresponder à imagem promocional de Aliados (as peripécias referidas coincidem com as que estão no respectivo trailer). Como qualquer sinopse do género, pouco ou nada nos diz sobre a riqueza dramática do filme. Convém referir, a esse propósito, que Zemeckis contou com a colaboração essencial de um argumentista tão talentoso como o inglês Steven Knight que escreveu, por exemplo, Estranhos de Passagem (Stephen Frears, 2002) ou Promessas Perigosas (David Cronenberg, 2007), tendo também realizado o magnífico Locke (2013), em que Tom Hardy interpretava uma personagem solitária, ao telefone, a conduzir o seu automóvel

Aliados pode definir-se como uma odisseia sobre as formas de coexistência de verdade e mentira, do desejo e das suas máscaras. Isso é particularmente importante logo no capítulo inicial, em Casablanca, com Max e Marianne a encenarem a relação romântica das suas personagens fictícias (observem-se as cenas no terraço, à noite, em que sabem que a vizinhança espreita os seus beijos e abraços). Tal encenação confunde-se já com a sua própria história de amor, ilustrando essa íntima crueldade que alguém definiu dizendo que “o amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer”.

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Aliados

Digamos, para simplificar, que muitos espectadores terão sido conduzidos para este filme — ou melhor, dele têm sido afastados — através de dois discursos igualmente equívocos. O primeiro, dominante no espaço crítico dos EUA, enraíza-se numa perturbante cegueira histórica, não conseguindo sequer identificar o modo como Robert Zemeckis está, de facto, a assumir uma posição de resistência a muitas modas contemporâneas, celebrando a energia de uma narrativa clássica de enorme depuração. O segundo, desavergonhadamente sustentado pelos tons cor-de-rosa da imprensa mais medíocre, insiste em descrever o filme como uma espécie de derivação burlesca da ruptura conjugal de Brad Pitt e Angelina Jolie, sugerindo algum envolvimento amoroso de Pitt com Marion Cotillard...

Repare-se: não se trata de gostar “mais” ou gostar “menos” deste filme em particular (ou de qualquer outro). Trata-se tão só de relembrar que a descrição e discussão (?) dos objectos cinematográficos a partir de tais pressupostos não passa de um exercício pueril e gratuito, alheio a qualquer gosto genuinamente cinéfilo.
De cinefilia se trata, como sempre, no trabalho de Zemeckis. Aqui, ele apropria-se do modelo de melodrama de guerra que possui uma referência obrigatória no «Casablanca» (1942), de Michael Curtiz, para contar a história de um par que, em França, colabora na resistência ao avanço dos nazis — e será preciso sublinhar que o lançamento da acção na cidade de Casablanca é tudo menos acidental?

Estamos, afinal, perante um brilhante argumento assinado por Steven Knight — o mesmo que escreveu «Estranhos de Passagem» (Stephen Frears, 2002) ou «Promessas Perigosas» (David Cronenberg, 2007), e realizou «Locke» (2013), com Tom Hardy. A sua teia de peripécias, desembocando na hipótese de a relação amorosa de Marianne (Cotillard) e Max (Pitt) estar assombrada pela traição de Marianne, desenvolve-se como um jogo de verdade e mentira que, em última instância, expõe a fragilidade de qualquer relação humana em contexto de guerra. «Aliados» é, enfim, um grande conto moral, como poucos que os estúdios americanos têm produzido nas últimas décadas — a sua solidão merece ser celebrada, não vilipendiada.

cinco estrelas

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