logo

Entrar
Actualizado às 10:16 PM, Dec 11, 2019

Gaumont X8

«Paixão» (1982) «Paixão» (1982)

Na mais banal mitologia do cinema, a expressão “grande estúdio” parece ser exclusivo de Hollywood. É um logro, ao mesmo tempo histórico e simbólico, que importa superar. Assim, é bem verdade que muitos dos valores espectaculares, estéticos ou narrativos que fazem a história dos filmes são indissociáveis da “fábrica de sonhos” da Califórnia. Mas importa não simplificar e lembrar que outros estúdios, de igual grandeza, marcam a evolução do cinema nos mais diversos contextos.

A Gaumont, por exemplo. Fundada em 1895 por Léon Gaumont, trata-se da mais antiga companhia cinematográfica do mundo, com um património imenso que envolve tanto os maiores sucessos populares como as derivações mais singulares e experimentais. Justamente, para comemorar o 120º aniversário do estúdio, uma colecção de oito DVD (entre os milhares que seria possível convocar) permite-nos redescobrir essa fascinante diversidade.

O menos que se pode dizer é que encontramos aqui um pequeno mas sugestivo leque da evolução da produção cinematográfica francesa, a começar por dois clássicos absolutos: «A Atalante» (1934) de Jean Vigo, obra-prima de um romantismo que persistiu, pelo menos como utopia formal, na produção francesa; e «Paixão» (1982), por certo o filme de Jean-Luc Godard que mais e melhor pode simbolizar a sua obsessão pela desmontagem dos artifícios do cinema, celebrando a sua cumplicidade com outras artes, em particular a pintura.
Ainda de Godard, encontramos «Atenção à Direita» (1987), filme em que o cineasta se coloca em cena para um prodigioso exercício de reflexão sobre a decomposição das relações humanas, tendo por pano de fundo a música rock (concretamente, através da presença de Les Rita Mitsouko).

E ainda o incontornável «Toni» (1935), de Jean Renoir, que no seu romantismo amargo constitui um exemplo pioneiro de utilização de cenários naturais e integração de actores não profissionais.

Há ainda três referências historicamente exemplares. Em primeiro lugar, «O Vagabundo de Montparnasse» (1958), retrato do pintor Amedeo Modigliani, com Gérard Philipe, que Max Ophüls começou a dirigir, tendo falecido durante a rodagem, para ser concluído por Jacques Becker. Depois, «Os Malditos» (1947), um filme de guerra assinado por René Clément e fotografado por Henri Alekan; e «Nove rapazes, um Coração» (1947), de Georges Freedland, um melodrama protagonizado por Edith Piaf.

A grande novidade chama-se «As Irmãs Brontë» (1979), retrato do universo convulsivo de Emily (Isabelle Adjani), Charlotte (Marie-France Pisier) e Anne Brontë (Isabelle Huppert) que continua a ser um dos mais belos e mais desconhecidos títulos da filmografia de André Téchiné — apresentado uma vez, há cerca de três décadas, pela RTP2, nunca teve estreia nas salas portuguesas. 

Mídia

«A Atalante» (1934)

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.