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Actualizado às 11:43 AM, Jul 21, 2019

Ozu x3

A Flor do Equinócio A Flor do Equinócio

Em «A Flor do Equinócio» (1958), Yasujiro Ozu filma a odisseia de uma jovem que enfrenta a tradicional pressão da família para se casar, afirmando o direito a escolher o seu noivo. «Bom-Dia» (1959) centra-se em dois irmãos que, ao descobrirem que as crianças da casa do lado possuem uma novidade que a eles lhes falta — um televisor —, decidem fazer greve às refeições até terem direito ao mesmo privilégio... Enfim, «O Fim do Outono» (1960), fiel ao simbolismo do seu título, segue as atribulações de um velho senhor que, depois da morte da mulher, tenta garantir um bom casamento para a sua filha.

Escusado será que estas brevíssimas sinopses nada nos dizem sobre a delicadeza humana, e também a complexidade formal, do cinema de Ozu. Acima de tudo, não reflectem o rigor de uma mise en scène sempre empenhada em expor os equilíbrios e desequilíbrios dos corpos no interior de um espaço altamente codificado.

Em todo o caso, através delas podemos detectar os sintomas de algo essencial, não apenas nestes três títulos da fase final de Ozu, mas no desenvolvimento de toda a sua obra (que, é bom lembrar, começa ainda no período mudo). A saber: o autor de títulos como «Eu Nasci, Mas...» (1932) e «Viagem a Tóquio» (1953) foi sempre um metódico observador das transformações da sociedade japonesa, vistas a partir da dinâmica interna das famílias.

Os três títulos agora editados em DVD — depois de terem integrado uma bela temporada de reposições de vários filmes de Ozu em novas cópias digitais — nascem de um paradoxal sentimento de curiosidade e desencanto. Estamos, afinal, perante histórias do Japão do pós-guerra. E mesmo se as agruras dos combates apenas perpassam, muito esporadicamente, no quotidiano, o certo é que se sente que todas as relações geracionais estão a ser objecto de mudanças mais ou menos atribuladas, para mais num mundo que começou a integrar os instrumentos de uma nova idade tecnológica (e escusado será sublinhar que a televisão, em «Bom-Dia», é o sinal mais evidente de tal processo — e tanto mais quanto Ozu a encara a partir de um contagiante sentimento de comédia).

Ozu não escolhe umas personagens contra outras. Este é, aliás, um cinema de profundo respeito pela complexidade afectiva de cada ser humano, seus gestos e pensamentos. Pelos três filmes perpassa antes o contido desencanto de alguém que observa a decomposição dos laços mais tradicionais no interior das famílias, ao mesmo tempo que não está seguro sobre a consistência de todo um novo sistema de relações (familiares, profissionais, sociais).

São, enfim, filmes que definem e integram um fascinante testamento. Depois, Ozu apenas assinaria mais duas realizações: «O Fim do Verão» (1961) e «O Gosto do Saké» (1962), este também já disponível em DVD. Veio a falecer a 12 de Dezembro de 1962, precisamente no dia em que completou 60 anos.

TÍTULOS ORIGINAIS

Higanbana + Ohayo + Akibiyori

REALIZAÇÃO
Yasujiro Ozu

ACTORES
Shin Saburi, Keiji Sada, Setsuko Hara

118 min. + 94 min. + 128 min.

1958 + 1959 + 1960 Japão

Texto originalmente publicado na revista Metropolis nº 26

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