logo

Entrar
Actualizado às 3:34 PM, Mar 25, 2020

Roberto – Ingrid de Roberto Rossellini

Stromboli Stromboli

As consequências de uma carta

Esta história começa, em 1948, com uma carta enviada a Roberto Rossellini por Ingrid Bergman, uma atriz já com dez anos de sucesso em Hollywood e que, com «Casablanca», tinha já conquistado um lugar na história do cinema. Dizia que tinha visto os filmes, que hoje agrupamos como constituindo a Trilogia da Guerra, lembrava que sabia falar inglês, não se esquecera do alemão, não brilhava no francês e em italiano não ia além de “ti amo”.

Deixava claro que queria escapar ao universo em que trabalhava, fazer algo diferente. Rossellini leva tempo a responder, mas quando o faz escreve em quatro páginas um alerta sobre os seus métodos de trabalho – sem guião porque considerava “que limita terrivelmente o âmbito do trabalho”, confessando um enorme entusiasmo por poderem trabalhar juntos. Junta ainda, por escrito, a ideia de base do que acabaria por ser a história do primeiro filme que fariam juntos, tecendo uma trama que partia de um relato (que na verdade lhe fora contado) de uma visita a campos de refugiados, referindo em concreto a história de uma mulher de dali tinha saído depois de se ter casado com um jovem que a levara para a minúscula ilha de Stromboli, na verdade pouco mais do que um vulcão no centro de uma terra desolada, e apenas habitada por pescadores. “Uma ilha onde a terra é completamente negra e o mar se assemelha a lama saturada de enxofre”, acrescentou. Apesar dos avisos de que não ira ser uma experiência Hollywoodesca, e depois um encontro secreto em Paris, no hotel George V, algumas semanas depois, que deixou ambos impressionados, decidiram avançar, certos porém de que era necessário encontrar antes um produtor americano para assegurar custos de produção de uma amplitude superior ao que até então havia sido a obra do realizador italiano.
«Stromboli», o filme que nasceria deste encontro, cruza o cinema com a vida pessoal de Roberto Rossellini, com o encantamento profissional entre o realizador e a atriz a transformar-se pouco depois numa paixão. Filmado in loco, «Stromboli» levou uma equipa de cerca de 60 pessoas à pequena ilha a norte da Sicília em abril de 1949. Não havia eletricidade nem água canalizada. Rossellini e Bergman ficaram hospedados na casa do professor, ao que parece a melhor construção de toda a ilha.
Como em experiências anteriores, Rossellini filmou com as gentes da terra, chamando dois pescadores de Salerno para os papéis do marido de Karin (Ingrid Bergman) e o jovem faroleiro que esta um dia tentará seduzir, os habitantes das duas localidades da ilha completando o resto do elenco.
Esta é uma história de desajustamento e isolamento, expressando como uma pesada moral que tolda uma comunidade uniformizada exclui quem age ou pensa de modo diferente. De berço lituano, a protagonista Karin tinha acabado num campo de detenção após o fim da guerra. Não conseguindo o visto para emigrar para a Argentina, vê num jovem pescador, que fala da beleza da sua ilha, a saída possível. E quando dá por si em Stromboli é tarde demais. Os seus horizontes não encaixam naquele espaço e, muito menos, dialogam com a gente que o habita. E o tom castrador com que a comunidade acolhe os seus hábitos e critica o marido acentuam mais ainda o desconforto. Apesar de na altura alguma crítica ter apontado a Rossellini um cruzamento das linguagens da ficção com as do cinema documental – sobretudo nas sequências que observam a pesca do atum ou uma evacuação da ilha por ocasião de uma erupção – a verdade é que o realizador italiano não estava senão à frente do seu tempo, a história do cinema tendo evoluído num sentido de tornar esta lógica de barreiras um muro a derrubar.
Do contraste da beleza desolada da ilha e dos retratos da comunidade local com a história de Karin, o faroleiro e o marido, numa narrativa que expressa de forma magistral uma ideia de choque de culturas, «Stromboli» tornou-se numa das obras-primas da filmografia de Rossellini, encetando um período de intenso trabalho com Ingrid Bergman, com quem acabaria por se casar. Juntos rodariam ainda «Europa 51» (1952), «Viagem a Itália» (de 1954 e outra das obras maiores da filmografia do realizador) e «O Medo» (1954), este último nascido da adaptação do romance homónimo de Stefan Zweig, que integram a caixa de quatro DVDs que agora surgem juntando a cada filme um comentário do historiador Adriano Aprá (um dos maiores especialistas em Rossellini) e ainda uma opinião de António-Pedro Vasconcelos sobre a obra do realizador.

(artigo publicado originalmente na revista Metropolis nº32)

 

Deixe um comentário

Certifique-se que coloca as informações (*) requerido onde indicado. Código HTML não é permitido.