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Actualizado às 12:33 AM, Nov 18, 2019

Os Verdes Anos / Mudar de Vida - DVD

Os Verdes Anos Os Verdes Anos

Infelizmente, é em Portugal que mais preconceitos encontramos contra o cinema português. Reconhecer tal conjuntura não decorre de qualquer reacção pueril, tendente a classificar todos os filmes portugueses como "bons" (ou "maus", se fosse essa a questão). Acontece que a redução do património cinematográfico português a meia dúzia de estereótipos mais ou menos moralistas funciona, antes de tudo o mais, como uma barreira no conhecimento da sua própria história.

Se outras razões não houvesse, esse estado de coisas bastaria para conferir uma importância muito especial à edição em DVD das duas primeiras longas-metragens de Paulo Rocha (1935-2012): «Os Verdes Anos» (1963) e «Mudar de Vida» (1966). Desde logo, porque, a par de «Dom Roberto» (1962), de Ernesto de Sousa, ou t (1964), de Fernando Lopes, estes são títulos fulcrais na afirmação do Cinema Novo português; depois, porque estamos perante cópias novas, restauradas, de admirável qualidade técnica (já lançadas nas salas), resultantes de um exigente trabalho de preservação efectuado pela Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema.

Simplificando, talvez possamos dizer que Paulo Rocha foi um autor que se distinguiu pelos ziguezagues de um movimento paradoxal: por um lado, há nele um gosto imediato, realista, pelas vivências quotidianas de personagens mais ou menos perdidas no anonimato do colectivo; por outro lado, o seu cinema procura uma dimensão poética, porventura mágica, que trabalha a ficção como a paisagem alternativa das próprias convenções sociais ou regras morais que determinam essas personagens.

Nesta perspectiva, «Os Verdes Anos» possui um apelo muito especial. A história do aprendiz de sapateiro (Rui Gomes) que se apaixonada pela criada (Isabel Ruth) que trabalha numa casa das chamadas "avenidas novas" integra as marcas clássicas do melodrama, ao mesmo tempo que se impõe como um testemunho precioso sobre as transfigurações urbanas da cidade de Lisboa. Algo de semelhante ocorre na convulsiva história de amor narrada em «Mudar de Vida», enquadrada pelo peculiar sistema de vida de uma pequena comunidade piscatória na zona de Ovar.

Estamos, afinal, perante uma perspectiva cinematográfica que nunca desistiu de perscrutar o seu próprio país, discutindo, ponto por ponto, os clichés (sociológicos, políticos, etc.) que tendem a simplificar a sua complexidade interna. Num tempo tão marcado pelas retóricas "telenovelescas", os filmes de Paulo Rocha distinguem-se por um respeito pelas suas personagens, e também pelos contextos da sua acção, que contraria os lugares-comuns que todos os dias nos bombardeiam. Dito de outro modo: a cerca de meio século de distância, «Os Verdes Anos» e «Mudar de Vida» são filmes que se reafirmam pela modernidade da sua visão.

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