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«Junto ao Mar» de Angelina Jolie

 Há qualquer coisa de bizarro e, num certo sentido, incómodo na descoberta de «By the Sea»/«Junto ao Mar», terceira longa-metragem de ficção realizada por Angelina Jolie, directamente no mercado do DVD. Daí a desencantada pergunta que, mesmo sem respostas seguras, importa formular: que está a acontecer no espaço público do cinema (português e não só) quando um filme, dirigido e interpretado por alguém como Angelina Jolie, na companhia do seu marido Brad Pitt, é objecto de tão desconcertante secundarização?

Enfim, importa não alimentarmos qualquer falsa ingenuidade. Ninguém está a sugerir que a imagem mais estereotipada de Jolie (uma espécie de “eterna” Lara Croft) se adequa a «Junto ao Mar» ou que, em última instância, poderia servir para promover o filme junto dos seus espectadores potenciais. Nada disso. Este é mesmo um exemplo de um cinema de invulgar pulsação intimista, alheio a qualquer look da moda, com um timing narrativo tão delicado e subtil que faz mesmo lembrar algumas experiências revolucionárias dos anos 60, em particular de um autor como o italiano Michelangelo Antonioni («A Aventura», «A Noite», «O Eclipse»).
Em termos simples, digamos, então, que estamos perante a história de um casamento exposto aos seus mais radicais silêncios. Em meados da década de 1970, o cenário de uma praia esquecida do Sul de França (de facto, a rodagem decorreu na ilha de Malta) acolhe Vanessa (Jolie), uma ex-bailarina que parece perdida na nostalgia da arte que já não pratica, e o marido Roland (Pitt), escritor confrontado com a angústia da página em branco. A expectativa romântica — a reconciliação afectiva de Vanessa e Roland — vai-se transfigurando num insólito processo de redescoberta que encontra uma espécie de espelho, material e simbólico, num outro par (interpretado por Mélanie Laurent e Melvil Poupaud).

Através de uma admirável depuração dos tempos narrativos, este é um filme em que o “nada” que acontece se vai consolidando como uma arquitectura de afectos em que cada personagem se revela muito para além das aparências que cultiva. Dir-se-ia um filme de análise psicológica, mas é, sobretudo, uma fascinante peça dramática sobre a física e a metafísica de uma relação a dois (ou, como sugeria Freud, a quatro...)

inedito by the sea 3

Depois de «Na Terra de Sangue e Mel» (2011) e «Invencível» (2014), Angelina Jolie confirma-se, assim, como uma cineasta de muitas singularidades, além do mais conseguindo neste caso, a partir de um argumento minimalista (também de sua autoria), concretizar um projecto alheio às convenções da sua imagem de marca e também à facilidade de qualquer moda cinematográfica ou mediática. Filme com ambíguas componentes autobiográficas?... Não nos precipitemos em jogos fúteis, cúmplices da desavergonhada mediocridade da imprensa cor de rosa. Registe-se apenas que, desta vez, ela assina: Angelina Jolie Pitt.

inedito ByTheSea DVD Packshot

Título Nacional Junto ao Mar Título Original By the Sea Realizadora Angelina Jolie Actores Angelina Jolie, Brad Pitt, Mélanie Laurent, Melvil Poupaud Origem Estados Unidos/França Duração 122’ Ano 2015

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